Viagem onirica

Jornal do Brasil

T erça-feira, 19 de outubr o de 2010

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TEA TRO

| CONTINUAÇÃO

Viagem

Daniel Schenker

Em que momento v ocê se dá conta de que conquistou sua independência? Qual é o mo - mento em que se vê, pela pri - meir a v ez, um indi víduo au - tônomo , sem amarr as ao pai e à mãe? Estas per guntas são r espondidas em f orma dr a - mática por P aulo de Mor aes e M aurício de Arruda Mendonça, autor es de

Antes da coisa toda começar

, no v o espetáculo da pr e - miada Armazém Companhia de T eatr o , que estr eia hoje par a con vidados no T eatr o 3 do Centr o Cultur al Banco do Br asil. – É o instante das primeir as sensações, quando v ocê cria seus conceitos e ideias de maneir a autônoma. Clar o que r e v erber a de modo difer ente em cada um – analisa P aulo de Mor aes. – Mas ac ho que os espectador es tenderão a se r econhecer em cena, inde - pendentemente de se identificar em com as ações específicas dos ator es. Em

Antes da coisa toda começar

, a Ar- mazém estende a r efle xão sobr e liber- dade par a o p r ocesso artístico . Ao con- trário da autonomia adquirida por cada indi víduo ao longo do tempo , no teatr o , os ator es, v ez por outr a, e xperimentam sensações de cer ceamento ao se v er em obrigados a substituir a liber dade do início dos ensaios pela necessidade de f az er escolhas quando a data da estr eia começa a se apr o ximar . – Não per ce bo dessa maneir a, mas en - tendo que possa soar assim par a os ator es. V i v encio intensamente o pr ocesso , alme - jando , porém, um r esultado – a v alia P aulo de Mor aes, ciente de que a estrutur ação da cena pode ser libertador a par a todos. Nesse no v o te xto , os autor es partem do espectr o de um ator (inter pr etado por Ricar do Martins), que, aterr orizado pela solidão da morte, passa a materializar suas lembr anças cor porificando a memória. Sur gem três per sonagens que espelham as f acetas de seu eu: Téo (T hales Coutinho) é um ator em crise que se questiona sobr e o sentido de seu ofício; Zoé (P atrícia Se - lonk), uma jo v em que a v ança sem amarr as sobr e as belezas e a bismos da paixão; e Léa (Simone Mazz er), uma cantor a que tenta se r ecuper ar de uma tentati v a de suicídio malsucedida. – Ac ho que é o mais onírico dos nossos tr a balhos. T r az à tona uma atmosfer a de sonho . Ou de pesadelo , em alguns mo - mentos – arrisca. P aulo de Mor aes tr aça uma associação entr e

Antes da coisa toda começar

, 19º tr a balho do g rupo , e o aclamado

Alice a tr a vés do espelho

, n o qual os especta- dor es liter almente acompanha v a m A li- ce em sua jornada. – Agor a, tr ata-se de um

Alice

meio adulto , apesar de o caráter sensorial não ser tão e videnciado quanto no tr a balho anterior , que inseria o público na cena – e v oca. T alv ez também seja possív el buscar cone xões entr e a no v a encenação e ou- tr as da companhia, que v olta a olhar par a a sua tr ajetória – como em

Da arte de subir em telhados

e

In veja dos anjos

(cujo trilho de tr em, principal elemento da ceno- g r afia, e v oca v a Cornélio Pr ocópio , cida- de natal de P aulo de Mor aes). O g rupo deu seus primeir os passos em Londrina, nos anos 80, com

Aniversário de vida, aniversário de morte

e ganhou r econhe- cimento no Rio de J aneir o com a mon- tagem de

A r a toeir a é o ga to

, tr ansferindo-se par a a cidade na década de 90. – Estamos r e visitando nosso per cur so , sim. Mas tenho dificuldade de f alar sobr e isto objeti v amente. Até por que, em

Antes da coisa toda começar

, nosso viés é subjeti v o – r ealça. Há, de qualquer modo , u ma contin ui- dade inegáv el: a da par ceria entr e P aulo de Mor aes e Maurício de Arruda Mendonça, que vêm escr e v endo boa parte dos te xtos encenados pela Armazém. No decorr er do tempo , o g rupo visitou a dr amatur gia de autor es como Sóf ocles (

Édipo

), W il - liam Shak espear e (

A tempestade

), Sa - m uel Bec k ett (

Esper ando Godot

), T en - nessee W illiams (

Grito d’alma

), Nelson Rodrigues (

T oda n udez será castigada

)e Bertolt Br ec ht (

Mãe Cor agem e seus fi - lhos

). No espetáculo anterior ,

In veja dos anjos

, P aulo e Maurício r etomar am a pr odução dr amatúr gica. Redigir am jun - tos – e não mais em cidades separ adas como antes (P aulo no Rio , Maurício em Londrina), de modo a tornar impossív el distinguir quem assinou qual cena. – Os conte xtos em que sur gir am os últimos tr a balhos ger ados a partir de te x - tos de outr os dr amatur gos f or am dife - r entes – esclar ece P aulo . –

T oda n udez será castigada

f oi um pr ojeto meu. Uma peça que deseja v a montar há bastante tempo . Em r elação a

Mãe C or agem e seus filhos

f omos con vidados por Louise Car doso . P aulo esta belece distinções em r elação às pr opostas de montagem sur gidas de te xtos conce bidos dentr o da companhia, que conta com o patr ocínio da P etr obr as. – É mais complicado tr a balhar a partir do z er o – e xplica. – Nós começamos com uma questão subjeti v a, sobr e a qual de - sejamos f alar . F az emos e xer cícios de criação com os ator es. Só depois, sur ge a história pr opriamente dita. Além de per petuar car acterísticas do g rupo ,

Antes da coisa toda começar

traz no vidades. Basta diz er que, pela primeir a v ez, os ator es e xecutam a trilha sonor a – com acor deom, bateria, baixo , violão , te - clado e afinação de sobr a –, sob a dir eção m usical de Ricco V iana.

Gr upo dirigido por Paulo de Moraes cria atmosfera de sonho no espetáculo ‘Antes da coisa toda começar’Divulgação

MEDO

– Ricar do Mar tins vive um ator ater r orizado com a solidão da mor te

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