A tela é o foco

-->Sociedade excitada -->pr o v a o quanto o estado de coisas atual r econfigur a o entendimento da história e mes- mo da pré-história. Christoph Tür- c k e se utiliza do conceito fr eudiano de compulsão à r epetição tr aumática par a desv elar nada mais nada menos que a origem da cultur a. Eis um ac hado de Tür c k e: ig r eja, dr o ga e cinema são a v e r dadeir a trindade da socie- dade e xcitada. Os fundamentalistas se ape- gam a ilusões assim como os dr o gados; par a suportar um m undo r egido pelo capital, o único r ecur so de pr aticamente toda a po- pulação é viciar -se em g r andes doses de es- tím ulos audio visuais. Evidencia-se, então , uma tar ef a difícil par a o cidadão com um, mas cuja necessidade ninguém até hoje demonstr ou com clar eza: a ascese de suspensão da torr ente de estím ulos como ope - r ação de “legítima defesa cotidiana”. O que a arte de v anguar da pr opõe, do início do século 20 até hoje – f ormas de r esistência ao r apto da per cepção feita pela indústria cultur al – tornou-se de suma importância par a que as pessoas mantenham a capacidade de concentr ação , de par ar e r efletir , ainda vi v a. Pr oteger -se dos estím ulos: o que cons- titui o fundamento neur ológico da consciên- cia tr ansf ormou-se na condição de sua so- br e vi vência. A leitur a da contempor aneidade feita por Christoph Tür c k e é, sem dúvida, a mais in- dicada par a entender o que se passa tanto par a os que de bom g r ado ouv em rádio nos ônibus e comem n u ma lanc honete diante de uma tela de TV quanto par a os que se irritam pr ofundamente com essa imposição autori- tária de atenção . Simplesmente, não conheço ninguém que tenha historicizado e f orm ulado tão adequadamente um pr oblema cotidiano , constante e fundamental desde o nascimento do cinema e do rádio . P esquisador es da ár ea de história, socio- lo gia, com unicação , teoria da liter atur a, psi- canálise e teolo gia terão m uito a ganhar com a leitur a do li vr o . Tür c k e é, com certeza, um dos r a r o s pensador es originais e gen uina- mente críticos em ati vidade hoje.-->Eduar do Guer r eir o Brito Losso é pr ofessor adjunto de teoria da literatura da UFRural-RJ.-->Em -->Sociedade e xcitada -->, o senhor f az uma leitura da cultura de massa contemporânea. Qual a contribuição específica do li vro para o assunto? -->– A cultur a de massa m udou m uitíssimo . Antigamente não passa v a de um espaço de in- f ormação , de entr etenimento , enquanto hoje em dia pene- tr ou a vida pr ofissional. A te - la do computador , o lugar on - de se manifestam os c hoques audio visuais que são emiti - dos quase 24 hor as por dia, tornou-se o f oco da socieda - de, o ponto de síntese social. A audio visualidade determi - na cada v ez mais a capaci - dade de per ce ber , de r epr e - sentar , de imaginar e de pen - sar . T odas essas capacidades elementar es são cada v ez mais impelidas, pr omo vidas e, ao mesmo tempo , tenden - ciosamente destruídas pelos c hoques que essa “metr alha - dor a audio visual” emite. -->O senhor usa a ima gem da “me- tralhadora audio visual” como desa gre gadora da perce pção. Não e xiste uma possibilidade de esse contato esta belecer uma m utação qualitati v a? -->– N ão são impactos de deter- minação a bsoluta. P elo contrá- rio , podem ser vir , até, sob con- dições f a v oráv eis, como esti- m ulantes pr oduti v os. P enso nos g r andes r ealizador es que consider ar am o clip de pr opa- ganda um desafio par a contar uma história em um min uto . Se isso f o r possív el, essa a b r e via- ção e essa condensação com- portarão um no v o g r au de in- tensidade. T r ata-se de desco- brir a f orça da condensação . Mas essa f orça não se desen - cadeia senão a partir de uma postur a crítica em r elação à “metr alhador a audio vi - sual”. Gosto de c hamar essa r eação de “golpe de judô”, golpear o inimigo com os seus próprios meios. -->A arte está sempre procurando o “golpe de judô”? -->– O “golpe de judô” é outr a imagem par a aquilo que c hamo “agarr ar o fr eio de emer gên - cia”. Isso significa fr ear todos esses pr ocessos de audio visua - lidade cada v ez mais fugaz es, fr ear o encaminhar do pr o g r esso impelido pelos impulsos e c ho - ques indi viduais cada v ez mais rápidos e penetr antes, a ponto de c hegar a atitudes de susten - tação , “ilhas sociais” de concen - tr ação , de tr anquilização , de se - dimentação . T al arte não ultr a - passa a v elocidade por acele - r ação , antes, ela fr eia, a br e es - paços par a pensar , cria ima - gens-pensamentos, que se man - têm no indi víduo , que não f o - gem, que não cessam de inquie - tar e ocupar as pessoas. Essa é a qualidade da imagem r efle xi v a. Nesse caso , qualquer arte r e - lati v amente bem-sucedida tr a - balha nessas ilhas de sedimen - tação e sedação . -->O li vro pensa a arte ao lado da pacificação e não ao lado da v an - guarda. Não é um modo de re - presentá-la como vítima? -->– A arte de v anguar da se con - side rava ainda no esquema de um pr o g r esso social hoje em dia cada v ez mais duvidoso . Eu gos - taria de distinguir entr e passi - vidade e defesa. O “golpe de judô” é defesa, não é passi v o . -->O senhor tra balha com obras da dita alta cultura. No fim do li vro, no entanto, cita o álbum -->The w all -->, de Pink Flo yd. A indústria cultural é ca paz de dar “golpes de ju - dô” bem-sucedidos? -->– M inha opiniã o é a de que a indústria cultur al é simples- mente ine vitáv el. T oda arte que se pr oduz hoje em dia tem de se articular nos padrões da indústria cultur al, f ato esse que Adorno , por e xemplo , não aceita v a de vidamente. Ele ain- da sonha v a em possibilidades de se articular f o r a dela. Be- c k ett e Sc hönber g, par a ele, er am manifestações de r esis- tência artística f o r a dos pa- drões da indústria cultur al. De certa maneir a, talv ez, f ossem, mas hoje em dia tal critério não é mais possív el. Não temos es- colha: a indústria cultur al é o campo ine vitáv el no qual o “golpe de judô” tem de ser aplicado , par a o bem ou par a o mal. Não temos outr o campo de ação , esta é a condição quase tr anscendental de aplicá-lo . Adorno , embor a autor da maior teoria estética do século 20, ca - r eceu dos meios conceituais pa - r a captar certos artistas como Hitc hcoc k, que fez g r andes obr as de arte nos padrões de Holl yw ood. P ar a Adorno , isso f oi impossív el; ou arte ou Holl yw o - od. Mas até de Holl yw ood po - dem decorr er obr as de arte, e até músicos popular es podem in v entar slo gans geniais como “ -->another bric k in the wall -->”.-->A-->Sociedade excitada: filosofia da sensação -->Christoph Tür cke. Unicamp. T radução: Antonio Zuin, Fabio Durão, Francisco Fontanella e Mario Fr ungillo. 328 páginas. R$ 88-->tela-->Nesta entr evista, Tür cke defende a indústria cultural