Pandemia e dentes quebrados

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Existe um consenso entre os dentistas do mundo inteiro de que pandemia do novo coronavírus, que aconteceu desde o início de 2020, trouxe aos nossos consultórios um número absurdamente grande de pacientes com dentes quebrados.

Esse fato ultrapassou todos os números. Os percentuais jamais foram vistos antes pelos odontólogos, mesmos os mais antigos na profissão.

Aqui no Brasil, desde o ínicio do Covid-19, metade da população teve alterações no sono e 80% das pessoas desenvolveram ou aumentaram o estresse, a ansiedade e também a depressão, de acordo com uma pesquisa feita na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Curiosamente, esses dados levaram não só a uma procura maior por tratamento odontológico, como também pelo psicológico.

Quando estamos mais estressados, nervosos e ansiosos, podemos adotar um hábito muito danoso à saúde bucal, que é o ranger dos dentes, que chamamos de bruxismo, ou também promover uma pressão intensa de uma arcada contra a outra , que chamamos de apertamento.

Ambas condições podem se apresentar tanto à noite quando dormimos, ou ao longo do dia sem o paciente perceber, mas sabemos que um grande influenciador nesse casos é o estado emocional.

Trabalho há muitos anos em uma especialidade que lida com dor, infecção, inflamação, abscessos. Enfim, são muitas emergências que não podem esperar a pandemia passar.

Com o aumento dos níveis de incertezas, do medo, da insegurança, do isolamento social e da quarentena, muitas pessoas chegam ao consultório com dentes trincados ou severamente quebrados por apertarem excessivamente uma arcada contra a outra , principalmente enquanto dormem.

E essas trincas ou fraturas possibilitam a penetração de bactérias para o interior do dente, causando muita dor, chegando até mesmo a um abscesso.

Esses problemas fizeram com que muitos pacientes procurassem rapidamente por uma emergência odontológica (apesar da necessidade de isolamento).

Essas situações de apertamento (dentes se apertando) e/ou bruxismo (dentes se apertando e rangendo) estão sendo os grandes vilões dessa pandemia na área de saúde bucal. Estima-se que 50% dos pacientes sabem que rangem e os outros 50% não sabem.

Essa frase choca, mas mostra como o nosso corpo sente os efeitos das restrições provocadas pelo coronavírus e o início da solução está na conscientização.

Os dentes só devem se tocar quando mastigamos, falamos ou engolimos. Se cerramos os dentes durante o dia (bruxismo em vigília) e, se tivermos essa consciência, iremos mudar esse mau hábito.

Muitas pessoas quando estão com problemas pessoais mais profundos, jogam essa ansiedade na boca e se apertam tanto que passam a ter dores na articulação das têmporas (ATM), dores na cervical, dores de cabeça, e até mesmo labirintites, porque todo esse sistema se intercomunica e sofre.

O fato de trabalharmos mais em casa, onde frequentemente não temos equipamentos adequados para ficarmos confortáveis ao longo do expediente. como também cadeiras e mesas posicionadas de formas erradas, podem ocasionar posturas ruins, com ombros curvados gerando uma tensão no corpo ao longo do dia, que pode levar a um ranger os dentes à noite.

Como dentistas e promotores de saúde, aconselhamos alguns procedimentos relaxantes durante o dia, alguns intervalos preciosos para um alongamento, procurar antes de dormir se concentrar na respiração, inspirando pelo nariz e soltando pela boca ,e, se possível, pedir ao profissional em Odontologia que faça um protetor bucal (placa miorelaxante) para usar antes de dormir.

Essas placas são feitas de silicone, com moldagens individuais e costumam ser bem confortáveis. Com o uso delas, passamos a não mais apertar os dentes, e sim a placa, gerando um ótimo efeito paliativo.
Infelizmente, essa é uma realidade mais comum dos que as pessoas imaginam. Lembrando também que esse apertamento pode levar ao amolecimento dos dentes, inflamações nas gengivas e perdas dentárias por fraturas mais profundas.

A saúde dos nossos dentes e a nossa capacidade de mastigar com conforto os alimentos para ter uma boa digestão, são fatores importantes para a obtenção de uma boa saúde sistêmica conforme envelhecemos.
Quanto maior a nossa prevenção, melhor será a nossa qualidade de vida.

*Doutora em Odontologia.