Sobrevivência na pandemia e a proliferação da depressão

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Equilibrando precaução e ousadia, pessoas buscam criar rotinas que se sustentem nessa nova realidade vivenciada em um período de pandemia. Sem experiência prévia experimentada nessa situação, nossa geração ainda tateia desgostosamente as possibilidades que se apresentam no cenário que se mostra, de partida, inóspito e hostil. Encarar um desafio tão severo e restritivo impõe diversos desdobramentos.

Os dados e estatísticas transformam em números os mais de duzentos e cinquenta mil sujeitos que vieram a óbito em decorrência desse mal. São milhões impactados diretamente pela perda de familiares ou conhecidos. Esses, embora sobreviventes, carregam consigo implicações austeras que surgem das experiências intensas de medo e de perda. Uma das consequências que se multiplica velozmente numa progressão nunca vista anteriormente é o alargamento das notificações de casos de depressão.

Em meio ao cenário atual, esse vazio inabalável aliado à presença de humor ansioso e abatido parece ganhar seu espaço de destaque. O desânimo que cresce robusto e fatal estaciona vidas, prejudicando severamente a capacidade de envolvimento nas próprias atividades cotidianas. O custo do enfrentamento desse período cobra seu preço caro: suprime esperanças e desemboca na perda de interesse nos acontecimentos do dia a dia.

Acrescido aos fatores emocionais se somam as questões de ordem financeira que desestabilizam e amedrontam diante de tantas incertezas. Sem garantias, perde-se a capacidade de planejamento e organização, por vezes tão eficazes como ferramentas de sustendo do nosso bem estar psíquico. Com isso, ampliam-se as incidências de transtornos e síndromes daqueles que já não conseguem controlar sua angústia ao lidar com esse novo quadro.

Não sobrevivemos ilesos à pandemia. De algum modo, somos transpassados por ela, manifestando sintomas legítimos de desconforto e desamparo diante da magnitude disso que não podemos controlar. Aspectos sociais e afetivos se entrelaçam numa confluência dolorosa e continuada sobre o despertar a respeito de nossa impermanência. E suas marcas e traumas podem ter consequências ainda mais profundas, caso não nos demoremos ao olhar a necessidade imperiosa de um cuidado mais profundo e intenso com nossa saúde mental.

Bruna Richter é graduada em Psicologia pelo IBMR e em Ciências Biológicas pela UFRJ, pós graduanda no curso de Psicologia Positiva e em Psicologia Clínica, ambas pela PUC. Escreveu os livros infantis: “A noite de Nina – Sobre a Solidão”, “A Música de Dentro – Sobre a Tristeza” e ” A Dúvida de Luca – Sobre o Medo”