Coluna da Segunda - Fraco rei, forte gente

Depois de assistir ao último debate dos candidatos à Presidência, fiquei pensando se alguns dos participantes têm, efetivamente, condições de comandar os destinos do Brasil neste tempo de imensos desafios. Afinal, todos os economistas afirmam que as atuais dificuldades só vão aumentar nos próximos anos. Há obstáculos terríveis à frente, como o elevado déficit público que convive com a necessidade de o Estado investir mais para gerar empregos. Um nó fiscal que roubaria o sono até mesmo de Lord Keynes. Como tirar nosso país da sinuca em que se encontra? E quem será capaz de fazê-lo? Diante disso, vem-me à lembrança uma estrofe de Camões, em “Os Lusíadas”: “Remisso, e sem cuidado algum, Fernando/ Que todo o Reino pôs em muito aperto/ Que, vindo o Castelhano devastando/ As terras sem defesa, esteve perto/De destruir-se o Reino totalmente/Que um fraco Rei faz fraca a forte gente”.

Para ilustrar minha preocupação, basta a última frase de Camões. “Um fraco Rei faz fraca a forte gente”. É isso mesmo. Quando vemos os principais envolvidos na disputa pelo cargo máximo da nação, surge a inevitável questão: será que estão preparados para ajudar a nossa forte gente a superar esses dias de incerteza e sofrimento? Não vale a pena perder tempo com o governo que aí está. O mandato-tampão de Michel Temer aproxima-se do fim. Faltam-lhe apenas quatro meses e meio para deixar o cargo que ocupou ao cabo de uma conspiração parlamentar contra a petista Dilma Rousseff. Pedaladas fiscais, mesmo que tenham existido, não eram motivo suficiente para decretar o impeachment da presidente. Se fossem, pouquíssimos governadores e prefeitos chegariam ao fim do mandato. E se permitirem que o artifício um dia volte a ser aplicado, os futuros presidentes correrão o mesmo risco, sempre que não tiverem maioria no Congresso.

Temer já é passado. Cabe, agora, aos eleitores buscar alguém que não torne fraca nossa forte gente. E é aí que a porca torce o rabo. Sem a presença do ex-presidente Lula, as pesquisas ainda mostram Jair Bolsonaro à frente. Mas, no debate da Rede TV, ficou clara a limitação, para não dizer a mediocridade, do ex-capitão do Exército. O que dizer de um político que sequer consegue formular uma pergunta ao adversário? Em sua última intervenção, Bolsonaro recorreu a uma cola escrita na mão para questionar Marina Silva sobre a liberação do porte de armas no país. Com seu rosto inexpressivo, levou uma descompostura de Marina, da qual não vai se livrar tão cedo. O passa fora já entrou para o folclore dos debates da atual eleição. A conclusão é uma só: Bolsonaro não está à altura do cargo que almeja. Ele representa a corrente mais retrógrada de extrema-direita do país, mas não mete medo em ninguém. A Presidência da República seria muita areia para o caminhãozinho do ex-capitão. Diz a ‘Veja’ que, se ele fosse eleito quem governaria, de fato, seria o economista Paulo Guedes. Mas nenhum dos dois convence, nem o boneco, nem o ventríloquo. 

Considerando que Alvaro Dias, Guilherme Boulos, Henrique Meirelles, cabo Daciolo e o milionário João Amoedo não têm a menor chance, os candidatos com possibilidades reais de chegar ao Planalto (repito que não aposto um tostão em Bolsonaro) são Ciro Gomes, Geraldo Alckmim, Marina Silva e Fernando Haddad, este ainda à espera da decisão de Lula. Será que têm experiência suficiente para levar o nau brasileira a porto seguro? Em princípio, sim.  Além de prefeito de Fortaleza, Ciro governou o Ceará e foi ministro da Fazenda e da Integração Nacional. Geraldo Alckmim governou São Paulo por quatro vezes, um recorde.  A ex-senadora Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente no primeiro governo Lula.  E o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad também ocupou o ministério da Educação nas gestões do PT. Todos conhecem bem a máquina pública e sabem o que fazer à frente do Poder Executivo. 

A decisão está nas mãos dos eleitores. Ainda vêm aí o horário eleitoral gratuito e mais debates no SBT, na Record e na TV Globo. Informação não vai faltar na mídia tradicional e na internet. Existem alternativas liberais (Alckmin e Marina) e à esquerda (Ciro e Haddad). Uns acreditam nas forças do mercado e outros atribuem ao Estado um papel estratégico na solução dos problemas que afligem o país. Há que escolher. O mais importante, porém, é não eleger um “fraco Rei”. O Brasil não merece.