Novidades paralelas

A campana eleitoral começou cheia de dúvidas, malandragens, chicanas jurídicas com o mérito de escamotear algumas novidades paralelas. A principal delas, na semana, foi a visita do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Jim Mattis, que iniciou pelo Brasil sua primeira viagem à América do Sul. Em seguida visitou Argentina, Chile e Colômbia, com objetivo de fortalecer as relações militares entre a região e Washington. Na realidade, os americanos se assustaram com a crescente influência da China no continente. E partiram para o contra-ataque.

O Brasil não figurou de maneira ostensiva na política externa dos Estados Unidos em tempos recentes. Nos dois mandatos do então presidente Lula, o chanceler Celso Amorim esteve mais preocupado com as relações chamadas de sul-sul, com países da África, com China e Rússia. No continente, privilegiou os bolivarianos. Os chineses trabalham desde o governo Geisel. Eles ultrapassaram os americanos no capítulo das relações bilaterais. São os principais negociantes com os brasileiros, tanto em termos de exportação quanto de importação. 

O secretário Jim Mattis conversou com os ministros Joaquim Silva e Luna, da Defesa, e Aloysio Nunes Ferreira, das Relações Exteriores, em Brasília. Na pauta do encontro estiveram alternativas para avançar em cooperação nas áreas técnica, científica, político-militar e indústria de defesa. O secretário de Defesa americano tratou de três temas que são discutidos há dois anos entre os dois países: o aproveitamento do centro de lançamento de satélites de Alcântara, a cooperação na área de defesa cibernética e a ajuda humanitária à Venezuela. 

Em relação à Venezuela não há muito que fazer. Desde o governo Bush Junior os militares americanos sonham com uma ação forte capaz de derrubar Maduro. O Brasil não deve embarcar numa aventura capaz de desestabilizar o continente inteiro. Maduro vai continuar fingindo que comanda uma democracia cercado por seguranças cubanos e militares venezuelanos de alta patente. Alguns deles acusados de envolvimento pesado com tráfico de drogas. O governo de Caracas é uma lucrativa ação entre amigos. Cedo ou tarde vai cair como ocorreu com todos os tiranetes latino-americanos.

O que trouxe Jim Mattis ao Brasil foi a percepção de que os chineses desembarcaram com apetite no país. E investiram fortemente em setores importantes da infraestrutura nacional. Na Argentina, construíram uma base de monitoramento de satélites no sul do país. Washington não gostou da novidade. E abriu aqui a perspectiva de utilizar a base de Alcântara no Maranhão para fazer lançamentos comerciais de foguetes. 

Isso é novidade. A base de Alcântara passou por várias fases. Na primeira delas, técnicos brasileiros tentaram desenvolver seus próprios métodos e equipamentos. Quando o primeiro foguete nacional estava pronto para subir, as instalações, súbita e misteriosamente, explodiram. Muita gente morreu. Tempos depois foi assinado um acordo com a Ucrânia para produzir e fazer lançamentos daquela área. O negócio não foi em frente, entre outras razões, por consequência da oposição do governo russo. Tecnologia espacial não é para principiantes nem amadores. Jogo duro. Ninguém transfere tecnologia nem gosta de ver o adversário com vantagem estratégica.

A novidade é que agora o governo de Washington decidiu privatizar as atividades nesse setor. Lançamentos comerciais poderão ser realizados do Maranhão, onde, por causa de sua localização próxima a linha do Equador, têm custo menor. E não envolvem tecnologia sensível. Ou seja, é possível colocar os brasileiros na roda, evitar estrangeiros bisbilhoteiros e ainda ganhar algum dinheiro com o negócio. É bom avançar o assunto antes da eleição, assim talvez o próximo presidente já encontre o assunto deliberado, discutido e até resolvido.

* Jornalista