A exposição queer aporta no Rio

A abertura da exposição “Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” acontece hoje no Rio, no Parque Lage, após trajetória permeada por controvérsias públicas. Da censura pelo banco patrocinador da mostra, em Porto Alegre, passando pelas manifestações inflamadas de procuradores sobre suposta “erotização de crianças” e “apologia à zoofilia”, até as idas e vindas promovidas pelo boicote do prefeito do Rio, Marcelo Crivella, ao acolhimento da exibição por parte dos aparelhos de cultura do município, a “Queermuseu” transborda política para além do que já se esperaria.

As visitas guiadas para colaboradores da vaquinha virtual, financiadora do evento, aconteceram nessa semana e puderam dar um gostinho da curadoria e do clima que ronda um dos maiores acontecimentos da cena artística deste ano. A proximidade com as eleições potencializa ainda mais as questões postas em crise pelo curador Gaudêncio Fidelis, tornando a “Queermuseu” uma parada obrigatória não só para aqueles interessados na discussão LGBTQI+, mas também para os indivíduos engajados na compreensão dos limites do debate público brasileiro.

Autoproclamada a “primeira exposição com esta envergadura que tem uma abordagem queer realizada no Brasil e a primeira na América Latina”, a “Queermuseu” cumpre papel central na elucidação do tema da diferença e da sexualidade em um país muitas vezes refém da bancada evangélica e historicamente vinculado ao pensamento ortodoxo cristão. Talvez por isso haja a recorrência de obras em diálogo com a ideia do religioso, em especial a figura de Jesus Cristo. 

Do temático “São Sebastião”, de Alfredo Volpi, ao figurativo “Cruzando Jesus Cristo com o Deus Shiva”, de Fernando Baril, sem esquecer do simbólico “Copo com água benta ao lado de copo com água comum”, de Deyson Gilbert, o trabalho instigante com veados de Sandro Ka e as hóstias de “Obra Et Verbum”, de Antonio Obá, essas e outras obras incorporam o sagrado em sua manifestação. Durante a visita, as peças que mais despertavam a curiosidade eram justamente essas, destravando discussões entre os instrutores e o público.

A organização dos itens expostos os aproxima e os agrupa de forma a haver um contágio de leituras, como nos ladeados sem título, de Otto Sulzbach; e o Jesus Shiva, de Fernando Baril. As obras se apoiam umas nas outras para ganhar em sentidos e nuances, exigindo, no entanto, que o visitante supere o arrebatamento inicial diante da profusão de peças em um espaço, por vezes diminuto, para a própria magnitude da proposta.

Em certo momento, o grupo passou a se questionar acerca da repetição das figuras e da temática religiosa em uma mostra queer. Um senhor murmurou que se tratava de uma escolha limitada pela obviedade, algo atrasado para o que ele entendia ser o momento do debate queer na Europa e nos EUA. “Aqui, Jesus não pode nem ser interpretado por uma mulher trans”, completou.

De fato, a onipresença de Jesus Cristo na “Queermuseu” enseja uma leitura queer. O mito do filho de Deus se apoia na conjugação de contrários absolutos, um sujeito que é divino e humano ao mesmo tempo. Homem, ainda que Deus. Deus, ainda que Homem. Uma situação de não-pertencimento pela superação de um binário. Por esse motivo, sofreu e foi crucificado. À exclusão e ao ódio, respondeu com amor incondicional. História não muito diferente de tantas pessoas LGBTQI+, transcendentes das categorias de masculino e feminino, por vezes conjugando-as, às vezes anulando-as. Apedrejadas, vilipendiadas, mortas. A resposta que dão ao mundo é ser o símbolo da felicidade e de um amor militante.

Entre debates com presidenciáveis empunhando bíblias e retrocessos patrocinados por um Legislativo conservador, a “Queermuseu” é obrigatória diante dessa e de outras leituras possíveis. Vá lá desenvolver a sua.

* Advogado da Secretaria de Estado de Direitos Humanos