O mundo é um moinho no ‘Bar Don Juan’

Os que acompanham os debates eleitorais e as entrevistas dos candidatos já constataram que o amplo universo da educação, da cultura e das artes não se encontra entre as prioridades de seus programas. O anunciado corte de verbas para a educação no orçamento de 2019 aprofunda a situação de colapso em que se encontram as universidades públicas federais. Bolsas de estudos em pós-graduação e formação docente serão reduzidas drasticamente, com o consequente desmonte da área associada à ciência e tecnologia. Questões urgentes que vão contribuir para o atraso e o aumento da desigualdade social.

De um ponto de vista mais amplo, o país fica à margem das questões relativas à grande cultura no âmbito internacional. Arte, história, literatura, teatro, música e cinema são manifestações que levam o leitor e o espectador a pensar. Que contribuem para sua formação e se combinam para revelar a alma, miséria e grandeza de um país. Ignorar esses temas significa a manutenção de uma mentalidade oportunista e retrógrada, que se recusa a enxergar a real dimensão dos problemas brasileiros. Tempos sombrios, de predominância dos mercados. Hora boa para se abrir um bar.

Políticos falam obsessivamente todos os dias em taxa de juros, inflação, reformas fiscal e tributária, defendem-se de acusações de corrupção, brigam pelo apoio do corrupto Centrão, um conjunto de partidos que monopoliza a herança do atraso, atacam os protegidos e desprotegidos pela Lava Jato, pressionam os ministros do Supremo. Manipulam índices de violência, desemprego, segurança e saúde. Predomina em suas falas uma visão camuflada e populista.  

Não se discute o óbvio: o investimento em educação e saúde é essencial para retomar o crescimento econômico. Tema central de uma campanha eleitoral que mobilize a sociedade deveria partir da prioridade à politica educacional, repassando os recursos necessários para expandir seus programas, sem os quais não há futuro. Há um desafio imediato: preparar as novas gerações para as profundas transformações que vêm ocorrendo no mundo da educação e do trabalho, em decorrência da automação e da robotização.     

Dos candidatos que se manifestaram sobre o tema, Alkmin defendeu a cobrança de mensalidades nos cursos de pós-graduação das universidades públicas. Bolsonaro afirmou ser favorável à privatização de toda a educação. Quem não tiver condições financeiras para pagar, receberia uma bolsa do governo. Ciro Gomes defendeu a revogação da emenda que estabelece um teto para os gastos públicos nos próximos 20 anos, como sua principal proposta para a educação. Nenhuma palavra sobre a diversidade social e cultural, a politica de cotas para a população negra, inclusão de pessoas com deficiência. Um retrocesso brutal depois de avanços significativos nas duas últimas décadas.

Levantamento realizado por entidades do setor revela que tanto as artes quanto as pesquisas científicas tiveram suas atividades reduzidas com os sucessivos cortes de financiamento dos governos federal e estaduais. A cada ano cresce o número de cientistas recém-formados forçados a deixar o país por falta de condições para desenvolver seu trabalho. Jovens brasileiros que fizeram doutorado no exterior recusam-se a voltar ao Brasil e aqui trabalhar para cumprir a obrigação contratual, decorrente da bolsa de estudos que receberam. 

Em carta aberta, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) questionou o corte de 33% de seu orçamento. “A história comprova que as nações que se desenvolveram efetivamente, que deram um salto em busca de se tornarem mais prósperas e justas, valeram-se intensamente dos benefícios proporcionados pela pesquisa científica”, alerta a carta.     

Arte e literatura são instrumentos valiosos para que os cidadãos possam pensar o mundo e intervir em ações de transformações da realidade. Com a negação desses direitos, o próprio direito fundamental à sobrevivência fica ameaçado. Resta procurar o “Bar Don Juan”, uma ilha perdida no mar agitado da política brasileira. Romance escrito por Antônio Callado na década de 70 do século passado, o bar era o refúgio de boêmios e intelectuais naquele confuso e inquietante período da vida do país. E nele sentar para ouvir Cartola cantar sua desesperada canção, o “Mundo é um moinho”.

* Jornalista e escritor