Eleições 2018 ou um plebiscito religioso?

As invocações a Deus e as frases terminadas em “honra e glória ao senhor Jesus” marcaram o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República neste 2018.

Muito mais que a profissão de fé de alguns candidatos, o que vemos é a tentativa real de assunção ao poder dos segmentos evangélicos fundamentalistas de viés neopentecostal. De fato, o projeto de um Brasil dedicado a Jesus está na gênese do movimento pentecostal no país desde seu surgimento. A lógica da salvação e da pregação do evangelho (as boas novas de Cristo) permeiam o movimento wesleyano nos Estados Unidos, e dele derivará o Avivamento de Azusa, liderado pelo evangelista negro Willian J. Seymour, que em pouco tempo se espalhará pelo mundo.

No Brasil, ao longo da história da nossa política, esses movimentos foram ganhando cada vez mais aspecto conservador e o ápice disso é sua aproximação com a ditadura militar de 1964 e a consequente concessão de rádios e TVs que deram origem ao movimento fundamentalista atual.

O sectarismo marca o movimento pentecostal desde o seu primeiro sopro de vida. Inicialmente anticatólico e defensor da pureza dos hábitos e costumes dos “filhos de Deus”, faz uma difusa distinção entre o que é de Deus e o que é “do mundo” e, nos últimos 30 anos, voltou suas baterias para os segmentos religiosos de matrizes africanas, definindo esses grupos como o alvo preferencial a ser exterminado das terras brasileiras, impingindo-os a classificação de “demoníacos”.

Por tudo isso é que, para nós, todo movimento político é extremamente significativo e nos obriga a um olhar atento sobre tudo e todos os setores que podem, por interesses políticos de momento, nos isolar ou nos colocar como alvo, como ocorreu nos movimentos dos últimos dias: a cassação das candidaturas negras ligadas às religiões de matrizes africanas no Rio de Janeiro; a votação no STF sobre o abate animal e; por fim, o evento que abre este texto.

Não podemos deixar de considerar que o aparelhamento do Estado tem sido, talvez, a mais eficaz estratégia desses segmentos religiosos fundamentalistas para disseminar suas práticas sectárias e conservadoras. O ponto de partida foram os legislativos municipais, estaduais e federal; logo após o Executivo com a eleição de Crivella no Rio como o grande momento dessa estratégia; e, finalmente, a tentativa, a princípio ainda com possibilidades relativas, de alçar um representante seu à Presidência da República. Paciência e recursos não faltam a esses setores. Neste momento, jovens talentosos estão sendo muito bem preparados para, nas próximas décadas, assumirem postos-chave do Judiciário até que chegue o dia em que alcançarão o Supremo Tribunal Federal.

A dicotomia que essas eleições coloca não só a nós religiosos de matrizes africanas, mas a todo o campo progressista, não é mais entre direita e esquerda e, sim, entre progressistas e religiosos fundamentalistas.

A flecha está lançada, que sua mira seja tão eficaz quanto a de Oxóssi e que acerte a grande sombra que se aproxima de nosso país e que pode destruir de vez nosso mal nascido projeto de nação.

* Babalawo Obeate Ifairawo, Rama Ifanilorun, Tradição Afro-Cubana de Ifá, ogan confirmado de Yemonjá no Ilê axé Iyá Omo Eja