Papel(ão) do Brasil nos Brics

A recém-realizada cúpula dos líderes dos Brics, na África do Sul, marcou dez anos de existência do grupo. O processo começou em 2008, por iniciativa da Rússia, que procurou Brasil, China e Índia – a África do Sul só se juntaria ao grupo mais tarde – para propor atuação conjunta. No FMI, onde eu era o diretor-executivo pelo Brasil, as cadeiras de Brasil, Rússia, Índia e China começaram a coordenar-se sistematicamente em diversos temas. O mesmo aconteceu no âmbito do G-20 e das capitais. 

Os ministros das Finanças e presidentes do Banco Central passaram a se reunir regularmente. Os líderes – os presidentes e, no caso da Índia, o primeiro-ministro – passaram a realizar cúpulas anuais, a primeira na Rússia, em 2009. Desde 2011, por iniciativa brasileira, eles vêm-se encontrando, também, à margem das cúpulas do G-20. Assim, desde aquele ano, os líderes dos cinco países reúnem-se duas vezes por ano – e todos os cinco comparecem sempre. 

Até 2017, participei da maioria dessas reuniões, no âmbito do FMI, do G-20 e do próprio processo Brics, e posso dar testemunho da importância que os Brics adquiriram. Logo foram percebidos como contraponto ao G-7, o grupo dos principais países desenvolvidos. Com a aguda crise econômica que atingiu os EUA e a Europa em 2008, os Brics (ainda sem a África do Sul) foram rapidamente reconhecidos como instância de interlocução pelos demais países. O secretário do Tesouro dos EUA, Tim Geithner, chegou a pedir, em duas ocasiões, para participar das reuniões ministeriais dos Brics. Fato insólito, que reflete a fragilidade dos EUA na fase mais aguda da crise de 2008-2009.

Qual foi o papel do Brasil? Não pense, leitor, que vou puxar a brasa para a nossa sardinha. Posso dizer, tranquilamente, que o Brasil foi o motor dos Brics. Dos cinco países, o nosso era o que mostrava ter mais iniciativa e capacidade de formulação. Isso culminou na cúpula de Fortaleza, em 2014, que foi, no meu entender, a mais importante das dez cúpulas realizadas até agora. Na ocasião, foram assinados os acordos que levaram à criação do fundo monetário dos Brics, chamado de Arranjo Contingente de Reservas, e o banco dos Brics, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Com o estabelecimento de mecanismos de financiamento, a cooperação entre os Brics alcançou novo patamar. Não teríamos chegado a esse ponto sem a atuação do Brasil, particularmente dos ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores. 

As condições mudam a partir de 2015. O governo Dilma mergulha na crise que levaria ao impeachment e o Brasil perde capacidade de atuar. Com o governo Temer, o problema se agrava. O Brasil continua presente nos Brics, mas já não tem o mesmo peso nem exerce a mesma influência. 

A atuação do governo Temer nos Brics, como em quase tudo, tem sido marcada pela mediocridade. Permita-me, leitor, contar um episódio revelador. Na cúpula de 2017, na China, eu ainda era vice-presidente do NBD e estava lá. Na véspera, os presidentes Temer e Zuma, que já haviam chegado a Xiamen, foram convidados pelo presidente Xi Jinping para um evento com empresários. 

Eis o que presenciei. Toca uma música solene e os presidentes adentram o recinto. O presidente chinês na frente, e o brasileiro e sul-africano atrás, como dois vassalos. Xi Jinping fala primeiro e, em seguida, o protocolo anuncia que ele não ficará para ouvir os outros presidentes. Para completar a cena humilhante, volta a ressoar a música solene, e Xi Jinping se retira, seguido novamente pelos outros dois presidentes! Foi um papelão. 

No período 2015-2018, aconteceu um eclipse do Brasil. E um Brasil ativo faz falta. Percebe-se certa perda de dinamismo e qualidade dos Brics. O NBD, principal realização do grupo, tem pouco a mostrar nos seus três primeiros anos. A China está cada vez mais atuante, mas ela tem agenda estreita e “self-serving”, como observou graduado diplomata com quem conversei semana passada em Brasília. 

Tudo isso pode mudar com as eleições. O novo governo brasileiro exercerá a presidência de turno dos Brics em 2019. E indicará o novo presidente do NBD em 2020. O Brasil terá a oportunidade de destravar o banco e revigorar o processo Brics.

* O autor é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos Brics em Xangai e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países