A vida como alimento da vida

Neste 9 de agosto, o Supremo Tribunal Federal vai analisar o recurso que está sendo chamado de “Abate animal”, em que, pela primeira vez, a maior instância judicial do país se pronunciará sobre o direito dos povos de matrizes africanas de manter ou tornar ilegal o abate ritual de animais, tal como seus ancestrais faziam no continente africano há milhares de anos.

Esse recurso, surgido no Rio Grande do Sul, vem no bojo de uma estratégia que visa paulatinamente, restringir, reprimir, tornar ilegal a prática da religiosidade de matriz africana em todo o país.

Nós, praticantes do Culto de Ifá, também utilizadores de animais, temos o dever de nos manifestar com relação a essa questão e colocar os conceitos de Ifá para que toda a sociedade brasileira entenda o que fundamenta nossa relação com os Orixás e como o abate animal se situa com relação a isso.

Entendemos que, como pano de fundo dessa discussão, está o racismo religioso que não vê a filosofia, a teologia, o saber africano, em síntese, como um saber ancestral que deve ser respeitado na mesma dimensão em que são respeitados vários outros saberes ancestrais dos diversos povos que vieram formar a nação brasileira.

A tradição Yorubá, onde Ifá está inserido, sempre observou e respeitou a natureza e a vida animal como criação de Olofin (Deus em nossa concepção). Esse olhar permitiu aos nossos antigos entender a vida como elemento alimentador da vida de outro.

Ao observar a cadeia alimentar, o antigo africano percebeu que o animal maior deveria, para sobreviver, alimentar-se da vida de animais menores; da morte nasce a vida, como está dito em vários odus Ifá como Ika Biku e Okana Sá.

Nesse sentido, o saber africano definiu os animais de mais fácil reprodução para alimentar suas divindades e alimentar suas comunidades após suas festas rituais. Por isso a predileção por pombos, galinhas, patos e cabritos para ativar a energia vital de um Orixá que nasce; para um ritual em caso de enfermidade; pedidos ou agradecimentos. Essa compreensão é fundamental para desmistificar a ideia racistamente disseminada de que sacrificamos gatos, cães e animais silvestres (ponto importante, pois não há crueldade ou tortura).

Vale notar que para o Yorubá a reprodução é bênção e prosperidade, por isso o africano não escolheu animais frágeis, que existiam em pouca quantidade e logo se tornariam extintos. Somos, pois, herdeiros de uma concepção que é extremamente sábia (pois em Ifá estão contidos todos os segredos da vida humana), que ao longo de milhares de anos se desenvolveu até chegar o processo de escravização do negro africano e a preservação e ressignificação desses saberes na Diáspora até chegar aos dias atuais.

É importante, então, que o STF não se deixe contaminar pelo racismo vigente em nosso país nem se dobre aos interesses neopentecostais fundamentalistas que querem fazer do Brasil uma República Religiosa Fundamentalista, que tem como alvo preferencial as religiões de matrizes africanas e todos os valores delas advindos.

* Jornalista, Babalawo da Tradição Afro-Cubana, Rama Ifanilorun, ogan confirmado para Yemonja no Ilê Axé Iya Omo Eja