Desencaixa

Se digo que Coca-Cola bebe Pepsi ou que Visa usa Mastercard soará insano, mas se disser que li, aqui no JB, que “Caixa troca BTG por Opportunity”, retirem as crianças da sala. 

Quando se espalhou que a Caixa deixaria sua sede no centro do Rio, intuiu-se que iria para algum desses empreendimentos que fizeram água no Porto. Afinal, no fundo do nosso quintal, há um milhão de metros quadrados, inapelavelmente vazios, em prédios corporativos, construídos em momento de descabida euforia.

Detentora de 100% dos certificados que por ali robustecem o potencial construtivo, mas revendidos em ínfima quantidade, natural seria usar uns quantos, ajudando a colonizar a área... como um dono de festa malograda que se obriga a comer os doces, infinitos enquanto durem.

Porém,  a reportagem de Gilberto Menezes Côrtes nos traz surpresa: a sede da Caixa não é mais da Caixa: no Governo de FHC tinha sido vendida para o BTG, ao qual a centenária instituição, desde então, paga aluguel. 

Como se chamará uma operação dessas? Banco às avessas? Reversibilidade bancária? Retrobank? Ou, simplesmente, a Caixa se pôs no prego? 

Mas as surpresas não param por aí, e é quando entra na história um oportunista Ricardão, dono de outros tantos vazios urbanos, inclusive boa parte dos sobrados da Rua da Carioca,  e arrasta a velha senhora para novos aposentos, igualmente vazios, na outrora mal falada Rua das Marrecas. Moderno palácio e, conforme noticiam, muito mais em conta. Ou seja, a Caixa pagava, Back To Game,  um aluguel caro, sendo, ela própria, gestora do fundo bilionário criado para o financiamento da habitação, o FGTS.

Nem sempre, porém, foi assim: deve-se a Sarney, além de marimbondos de fogo e a repetitiva saudação “brasileiras e brasileiros”, a extinção do Banco Nacional da Habitação, o BNH. Sua sede, aliás, vizinha à da Caixa, durante um tempo, formou, com a Petrobras e o BNDES, o Triângulo das Bermudas, no qual, rezava a maldade do povo, tudo que ali caísse desaparecia.

Não que o BNH tenha deixado saudades. Além de banco, ele foi o veículo da política habitacional e urbana da ditadura, criatório de conjuntos urbanos enormes, que redundaram em novas áreas complexas, que retornam à condição de “aglomerados subnormais”, uma das expressões criadas naquele período. O BNH era pródigo em neologismos: na ditadura era proibido o uso da palavra “favela”. Um programa de urbanização, por exemplo, tinha como sigla “Cura” (Comunidades Urbanas de Recuperação Acelerada), embora não operasse qualquer efeito curativo.

O Complexo da Maré, berço de Marielle Franco, nossa vereadora assassinada, é resultado de diversas ações governamentais, sendo a maior delas um enorme aterro de trechos da baía, que tinha até marca fantasia: Projeto Rio. 

A façanha era, na verdade, destinada a alavancar o coronel Mario Andreazza, então ministro, como candidato a presidente militar. Aliás, Vila do João, um dos trechos do famoso complexo urbano, leva o nome do general João Figueiredo, ocupante, na ocasião, da vaga de ditador. De Andreazza, por seu turno, cuidou Maluf, derrotado por Tancredo, que nos legou, por morte,  o retrocitado Sarney.

Malgrado o fracasso daquela política de construção intensiva de habitações em áreas remotas, eis que é ungido, embalado pela acertada proposta de subsídio direto ao morador, o inacreditável programa “Minha Casa Minha Vida”, gerenciado pela Caixa, que, ironicamente, nem mais casa tem.

Os equívocos do BNH poderiam ter servido para que não se repetisse uma política de construção pela construção, abstraindo-se de tudo o que se aprendeu no período ditatorial.

Mas talvez seja pedir demais, pois mesmo a ditadura tem sido poupada, até em seus símbolos! Extinto o BNH, seu prédio, agora como Centro Empresarial, legitimando o cargo usurpado, passou a ostentar o nome daquele que inaugurou as trevas: Presidente Castelo Branco.

Com direito até a busto no saguão!

* Arquiteto, DSc em Urbanismo