Os cães ladram e a caravana passa

O ditado popular mostra a importância de esquecermos críticas que não sejam construtivas. Uma forma simples de dizer que acusações emocionalmente pouco equilibradas não devem ser consideradas por aqueles que tenham o objetivo de trazer algo de significativo para a melhoria das instituições. 

Exemplo de catarse pessoal e populismo foi a opinião de Sandro Araújo, publicada em 08 de julho de 2018, sob o título “Polícia Federal: glamour e atraso”. Embora seja policial federal, o autor do texto ocupa o cargo de vereador no município de Niterói/RJ e já se encontra em pré-campanha para o cargo de deputado federal, mas não se justificam os ataques dirigidos à instituição. O trabalho da Polícia Federal não tem atraso nem glamour, o que se busca é o cumprimento de uma missão constitucional como parte do sistema de Justiça. 

O êxito das investigações da PF se deve ao trabalho realizado por integrantes verdadeiramente comprometidos com a função policial, homens e mulheres que não costumam ser atraídos pelos holofotes. O resultado positivo também é mérito da atuação conjunta com diversas outras instituições. Ministério Público, Judiciário, Receita Federal (além de muitos outros) colaboram para o êxito que é hoje reconhecido pela população brasileira. A atuação coletiva diminui a probabilidade do cometimento de erros, havendo sempre a possibilidade de recurso às diversas instâncias do Poder Judiciário. 

Ocupar um cargo na PF continua sendo o objetivo de milhares de brasileiros. A cada novo concurso, o que se vê é uma concorrência acirrada para o ingresso nos quadros da instituição. Além da estabilidade pessoal da carreira, o trabalho gera resultados socialmente reconhecidos, o que é nítido no histórico das grandes operações nas últimas décadas. 

Para que não sejamos induzidos a erro por bravatas, as medidas restritivas de direito tomadas pela PF são analisadas por mais de um profissional especializado. Manifestam-se o delegado de PF, o membro do MP, e é o juiz quem decide, profissionais com formação jurídica, que ingressam nos órgãos mediante rigoroso concurso público. Destilar ódio contra as carreiras jurídicas é desmerecer a importância da formação de quem irá garantir a preservação dos direitos da população. 

O que não se pode supor é que o trabalho de investigação realizado nas últimas décadas pela Polícia Federal seja injusto ou de má qualidade. Tomar questionamentos pontuais como a regra parece ser o intento de muitos investigados, principalmente os que já foram presos ou processados, no objetivo de desmoralizarem as instituições de Justiça. Primeiramente, o trabalho investigativo é realizado nos limites da legalidade, com a participação do Ministério Público e a intervenção do Poder Judiciário. Em segundo lugar, a garantia do respeito à lei também pressupõe a punição daqueles que, por oportunismo, se enveredam pelos caminhos do crime. O trabalho republicano e suprapartidário realizado pela Polícia Federal é uma forma de preservação da democracia, responsabilizando àqueles que utilizam os mandatos eletivos para se locupletarem e imprimirem mais sofrimento ao povo carente. 

Seja como for, cabe à população a missão de separar o joio do trigo. Os que realmente têm compromisso com o trabalho policial daqueles que se direcionam para o corporativismo. Em ano eleitoral, também é de todos nós a responsabilidade de recusar aqueles que se arvoram pelos caminhos da política de baixa qualidade. Independentemente da panfletagem de um ou outro integrante, as instituições são maiores que os seus membros temporários. Os instrumentos de retórica vazia não se sustentam por muito tempo e a grandeza republicana do sistema de Justiça se mantém. Os cães ladram, mas a caravana passa.

* Delegado de Polícia Federal