Futebol jogado fora de campo

Desde 2002, os países da Europa venceram todos os campeonatos mundiais de seleções organizados pela FIFA e isso me fez refletir se estamos diante de uma mera coincidência. Acredito que não. Movimentando cada vez mais dinheiro e alimentado por uma crescente paixão de seus fãs, o futebol se tornou, mais do que um esporte, uma importante atividade econômica suportada por diferentes profissionais (não apenas jogadores e comissão técnica). É crucial que cada clube ou seleção tenha, mais do que os melhores jogadores, um bom time de técnicos em todas as áreas, incluindo, médicos, psicólogos, fisiologistas, analistas de scout (ferramenta de registro de informações e análise de jogo) e, cada vez mais relevante, uma boa equipe de gestão, estratégia e backoffice, que garanta tudo o que for necessário para a boa performance da área técnica, incluindo (i) o aprimoramento de estratégia, planejamento e governança; (ii) a captação e o incremento de receitas que suportem a atividade; e (iii) o cumprimento de obrigações regulatórias e monitoramento de riscos da atividade.

Recente estudo publicado pela Deloitte(DTT) mostra, de uma forma impactante, a evolução financeira do futebol europeu, desde 1997: o 20º clube de maior receita em 2017 teve movimentação financeira 453% maior que o clube na mesma posição (20ª), duas décadas atrás (aumento de 36 milhões de euros para 199 milhões de euros, entre 1997 e 2017).

Comparativamente, o Clube de Regatas do Flamengo, um dos maiores expoentes no Brasil na implementação de boas práticas de gestão e governança, além de recordista de receita, fechou 2017 com receita operacional líquida de R$ 623 milhões, portanto cerca de 20% inferior ao 20º maior clube europeu. 

O abismo financeiro entre a Europa e a Região Sul-Americana, no que se refere ao futebol, é certamente um dos motivos para a hegemonia europeia nos últimos 16 anos, não necessariamente pela quantidade de recursos fluindo no futebol, mas principalmente por todas as boas práticas, recursos e estrutura que acompanharam esse maior fluxo financeiro. 

Considerando a disparidade crescente de investimentos entre as ligas europeias e demais regiões, alguém poderia defender que o talento faz a diferença e que, mesmo com menos recursos, seremos competitivos, independentemente dos recursos financeiros, infraestrutura, estratégia, práticas de gestão etc. 

Alguém poderia também argumentar que os nossos melhores jogadores atuam nas ligas europeias e que estão, portanto, expostos a todos os benefícios que os nossos adversários europeus têm acesso. O ponto, no entanto, não está no nosso aprimoramento do esporte, mas sim no do europeu. Continuamos a produzir craques de futebol, mas as principais seleções europeias, também. Não fomos nós que pioramos, foram nossos adversários que melhoraram, tanto com de talentos, como na captação de recursos e gestão de negócio. 

Há quem também possa argumentar que a Croácia não tem uma liga nem clubes com acesso a recursos e práticas melhores que o Brasil. Aqui, porém, há um dos grandes motivos para o futebol ser tão apaixonante: a Croácia jogou com a alma e tem bons talentos – os dois fatores a fazem ter todos os méritos.

Certo é que apenas o talento não é mais suficiente. Como diria o gênio Thomas Edison, genialidade é 1% inspiração e 99% transpiração, e o árduo trabalho de aperfeiçoamento europeu colocou o continente em vantagem frente ao nosso país. O futebol brasileiro tem um árduo caminho a percorrer porque nossa atual estrutura tem suas peculiaridades. 

Diferentemente de empresas em outros setores, o clube de futebol brasileiro não tem dono, alguém envolvido com seu processo decisório, estratégia e que seja indefinidamente responsável por sua continuidade e sustentabilidade. Apesar de alguns (poucos) clubes já terem iniciado a segregação entre clube social e o futebol (a ser administrado como uma empresa), a iniciativa ainda é incipiente.

Além da estrutura societária, a maioria dos clubes possui dívidas milionárias, que vão sendo passadas de mandato para mandato pelos presidentes eleitos por sócios dos clubes. E a pressão por resultados, vinda de torcedores altamente passionais, é muito forte, o que leva a gastos descontrolados como forma de dar retorno a essa passionalidade, independentemente das melhores práticas de gestão, políticas de austeridade e saúde financeira. 

Passos importantes foram dados nos últimos anos, como a criação de órgãos públicos de fiscalização vinculados ao Ministério dos Esportes e bons exemplos de avanço em governança em alguns dos nossos clubes. Mas ainda há muito amadorismo. Poucos são os clubes com um bom planejamento, estratégia, estrutura mínima de governança e rigor em suas atividades de compliance, condições para captação de recursos com parceiros estratégicos (incluindo patrocinadores) e eventuais investidores. 

Ter os melhores talentos não é mais garantia de vitória. Se não avançarmos no aprimoramento de práticas de gestão, perderemos a hegemonia conquistada em uma época que o talento, por si só, era suficiente. O futebol é um esporte coletivo, no sentido mais amplo que essa expressão possa ser utilizada, e há cada vez menos espaço para amadores.

* Sócio da Mazars Consultoria, atua na auditoria do Flamengo e Fluminense