Fatores externos que contribuem para a prática da intolerância religiosa

Tradicionalmente, o Estado brasileiro se configura muito mais voltado para a proteção da propriedade privada do que para a defesa do cidadão. 

Nesse sentido é visível o despreparo dos agentes públicos quando se trata de lidar com temas contemporâneos, como por exemplo a intolerância religiosa. Nossa legislação no que se refere a esse campo é frágil, uma vez que a Constituição Federal de 1988 ainda hoje carece de regulamentação.

Temos um lindo artigo na CF88 que garante o direito e a liberdade de culto. Infelizmente, no entanto, não temos leis municipais e estaduais que dêem conta de garantir essa liberdade religiosa no território, ali no chão onde as pessoas pisam e tornam concreta a realidade nua e crua das ruas. 

Temos assim, portanto, o policial que reduz um caso de grave agressão religiosa a uma simples briga de vizinhos e um Judiciário que faz de sua lentidão uma ferramenta na maioria das vezes a favor dos algozes e não das vítimas. 

Em março deste ano, Viviane Tavares da Rocha entrou em conflito com a direção de uma escola confessional, onde estudava seu filho, por interpelar um professor usando fios de conta de sua Orixá. O caso repercutiu, serviu de palco para os oportunistas de sempre e, de fato, Viviane Tavares pouca ajuda obteve dos vários órgãos que se arvoram defensores dos segmentos religiosos, mas que são instrumentalizados para servir de trampolim eleitoral para a, b, ou c. 

Viviane conta que, efetivamente, o filho acabou sendo desligado da escola, sua rede de amigos foi destruída, pois os colegas foram ameaçados de perder suas bolsas de estudo caso se mantivessem próximos ele e, hoje, o menino encontra-se triste e depressivo.

Por sua vez, pretensas ”lideranças religiosas de matrizes africanas” tentaram coagi-la a não levar o caso adiante e, após muito insistir, Viviane constituiu advogado e o caso segue tramitando na Justiça. 

E é neste ponto que a esperança da justiça torna-se injustiça para o pleiteante, uma vez que está para completar três meses que Viviane Tavares espera a citação do réu, a escola confessional, por danos morais e intolerância religiosa. 

O caso de Viviane e seu filho é emblemático e sintomático de como a macroestrutura que sustenta o racismo religioso e sua face beligerante, a intolerância religiosa, funciona. 

É necessário, portanto, um olhar aprofundado da sociedade como um todo para esses casos de intolerância religiosa, pois trazem em si o ovo da serpente que ao chocar trará caos, perseguição e mortes, tudo supostamente em nome da religião, de Cristo e de Deus. 

A ideia de um estado totalitarista não está longe de se tornar realidade em toda a América Latina. Tal como aqui, em vários países vizinhos ou do continente temos visto o crescimento desses segmentos religiosos que fazem da perseguição e discriminação uma prática permanente.

Ao iniciar-se, em agosto, o calendário eleitoral, buscaremos observar o crescimento de candidaturas dos segmentos “evangélicos” e não nos causará surpresa se eles forem a maioria entre os candidatos que se apresentarão à avaliação popular. 

É assustador pensar no crescimento exponencial que esse segmento religioso tem tido nos últimos 30 anos, ainda mais quando é visível, como é o caso hoje da cidade do Rio de Janeiro, onde tudo que esses setores querem é ocupar cargos-chave na máquina pública para favorecer os seus, aumentar cada vez mais sua zona de influência, gerando, assim, um círculo vicioso que, ao fim e ao cabo, nos levará a uma ditadura religiosa que nos tornará refugiados religiosos dentro de nossa própria terra.

* Jornalista, Babalawo da tradição Afro-Cubana de Ifá, Rama Ifanilorun e Ogan de Yemonja do Ile Axé Iya Omo Eja.