A bola corre mais do que os homens

O título acima é de um livro de Roberto DaMatta, em que se discute a contrariedade entre os avanços que a seleção brasileira mestiça proporciona, em termos de igualdade e desenvolvimento de nossas potências, e a que vemos em nossa República.

A discussão é herdeira de uma série de análises que sucederam à ascensão daquele que foi chamado de Rei por Nelson Rodrigues, apontando em Pelé, o atleta do século 20, a capacidade de superar o complexo de vira-latas que constrangia o sucesso dos brasileiros até 1958, quando vencemos nossa primeira Copa do Mundo.

Sua nobreza não apenas nos tornou as referências no esporte mais popular do mundo, com cinco títulos mundiais, como nos mostrou do que seremos capazes quando construirmos uma sociedade efetivamente democrática, e, portanto, livre e inclusiva, na cultura, economia e na política. 

A França de Mbappé não é diferente. Embora se trate da prestigiosa nação cuja capital é a Cidade Luz, ponto focal da Revolução Francesa, de arte reverenciada em todo o mundo, e também de grandes grifes da indústria do luxo, Paris é uma capital onde milhares de pessoas vivem em favelas, talvez até piores que as cariocas.

A França é também um país que está se tornando cada vez mais desigual e dividido, como o Brasil, onde muitos imigrantes encontram no futebol a oportunidade de um reconhecimento social que não identificam na cultura, economia e na política. 

Por lá, o futebol é a verdadeira porta de entrada na Cidade Luz, onde imigrantes negros, muçulmanos, refugiados das guerras terroristas e da implacável corrupção das elites das nações subdesenvolvidas tornam-se artistas da bola como os nossos craques do passado. 

Mais que isso, sua ascensão não se dá como consumidores, mas como cidadãos que, através do esporte, almejam se inserir na avançada cultura educacional francesa, dotando-se de alto potencial transformador. 

A conquista francesa não é obra do acaso. Estamos diante de uma revolução que marca, de um lado, o surgimento de uma nova potência no futebol: os craques franceses são melhores e mais “artistas” que os atuais jogadores brasileiros; são os herdeiros de Pelé e Didi, e é por isso que jogadores como Mbappé e Pogba desbancam os “heróis” do Brasil, e também Argentinos, Uruguaios e de toda a África.

A imigração, por outra, está construindo uma nova França e, caso a democracia que estamos vendo nos gramados se estenda para a República, estaremos diante de uma revolução bem mais revigorante que o movimento de Maio de 1968. Estar-se-á construindo um novo mundo, onde o que temos de diferente não justificará o isolamento de “minorias” fechadas em torno de si, em seu “lugar de fala”, mas incentivando a cooperação coletiva como marca da elevação de nossas potencialidades humanas. 

É preciso fazer esta bola continuar a correr! 

* Professor substituto de Filosofia das Organizações – UFRJ