Dr. Bumbum e a ditadura da beleza

Lilian, Adriana, Mayara. Vítimas fatais de procedimentos médicos que deram errado. As três mulheres morreram em pouco mais de uma semana, no Rio de Janeiro, e levaram com elas o sonho de ficarem mais bonitas. Duas foram a óbito após passar por cirurgias dentro de apartamentos na Barra da Tijuca. Isso mesmo: apartamentos. Os procedimentos não foram realizados em hospitais ou clínicas credenciadas, mas mesmo assim as vítimas se submeteram ao risco, certamente por desinformação e falta de conhecimento.

Um dos médicos, indiciado pela morte da bancária Lilian Calixto, de 46 anos, está preso e carrega mais de dez processos em que aparece como réu, um deles por homicídio. Já o “profissional” – assim mesmo, com aspas, porque não se sabe se um cidadão desses pode ser classificado como profissional – que fez o procedimento em Mayara Silva dos Santos, de 24 anos, não foi sequer identificado até o momento em que este artigo foi concluído. A jovem mandou mensagem a familiares quando começou a passar mal, mas não disse onde estava. Foi levada não se sabe por quem ao hospital e lá faleceu. Parece enredo de filme em que o médico-monstro é vilão da história. Ele mata e, em seguida, desaparece. Mas ultimamente a vida real tem sido de fazer inveja aos melhores roteiristas de cinema. Os personagens macabros são reais. E são verdadeiros astros nas redes sociais. 

O médico indiciado e preso pela morte de Lilian tinha mais de 600 mil seguidores no Instagram, mais de 50 mil no Facebook e seu canal no Youtube passava dos 1,5 mil inscritos. Ele fazia avaliações pelo Whatsapp, aplicativo que usava também para agendar os procedimentos. Essa era a vida virtual do médico, que seduzia suas futuras pacientes com fotos de “antes e depois” e postagens com famosos que dizia serem seus clientes. E fazia os procedimentos em uma cobertura, na Barra da Tijuca, onde morava. Vale a pergunta: quando a vida deixou de ser real e passou a ser virtual? Será que é exagero dizer que – em época de postagens e curtidas – um médico vale mais pela imagem que transmite nessas redes virtuais do que pelas informações corretas que as associações e sociedades de medicina têm sobre ele?

Por falar em internet, basta uma pesquisa rápida na rede para saber que a escolha de um profissional para cirurgia plástica deve passar pelo site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Se o médico estiver credenciado lá é porque o registro dele está liberado e ele está autorizado a praticar a profissão. As informações que estão no site são reais, o que já passa uma maior segurança. Mas quem quer saber de informação real em época de vidas virtuais? A pergunta é grave. E é para se pensar.

E o que leva muitas mulheres a escolher o médico pelas redes sociais, fazer avaliações por Whatsapp e procedimentos em apartamentos? Essa resposta é simples: a tal da ditadura da beleza. Afinal, elas precisam aparecer lindas em fotos nas redes sociais para terem um alto número de curtidas. É a ditadura da vida virtual alimentando a ditadura da beleza. E como reverter esse cenário preocupante? É para se pensar. 

O Brasil lidera o ranking mundial de cirurgias plásticas entre os jovens: são 90 mil procedimentos cirúrgicos por ano. Quando se fala de mortes nesses procedimentos, não só envolvendo jovens, os números assustam: pelo menos uma pessoa morre por mês após passar por cirurgias plásticas no país. Em alguns períodos, o número de vítimas fatais aumenta, como aconteceu nos últimos dias, com três mortes em pouco mais de uma semana. Mortes que podem ser evitadas se o cerco sobre esses médicos-monstros aumentar e as pessoas voltarem a viver mais a vida real. 

* Jornalista