Perdoai as profanações (pseudo) teológico-políticas nossas de cada dia

Das três tentações de que o mal faz uso para colocar Jesus Cristo à prova, uma promete isto: “Disse-lhe o diabo: ‘Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser” (Lucas 4:6). Se reinos são Estados governados por reis, a política de governar homens foi entregue, primeiro, ao mal e, por essa razão, cabe tão somente ao diabo entregar a quem ele quiser o poder político. No Livro do Apóstolo Lucas está bem claro: a política, concessão do diabo. Por isso, sua natureza diabólica, que mistura para confundir, jogando entre essência e aparência. A política é profana. Jesus, entretanto, recusa a proposta – o seu reino não se encontra entre os reinos humanos.

Misturando dinheiro de campanha com orações, fiéis com eleitores, palanque político com culto, micareta protestante com altar religioso, a “Igreja Unilateral Republicana Brasileira” tem muitos bispos: bispo-vereador, bispo-deputado, bispo-prefeito e, dessa forma, a palavra política do bispo se equivale à palavra religiosa do político, não havendo diferença entre os interesses de Seu deus e o orçamento público. 

Há algum tempo, suas igrejas expuseram nas fachadas enormes banners com este chamamento: “Traga a sua garrafa com água para receber o elemento santo”. Ao lado da frase, a enorme imagem de uma garrafa pet. No lugar de um santo, igrejas propagaram a foto de um objeto industrial e, nele, água tirada de algum lugar. Diferentemente da imagem de um santo, que busca ser acima do mundano, a natureza do poder simbólico da Unilateral mistura produto industrial com elemento tido como santo. Ora, em “O sagrado e o profano”, o historiador da religião Mircea Eliade escreve que o sagrado é o real por excelência, quer dizer, ele é a coisa em si, que, por ocupar lugar único, não se mistura e fundamenta o modelo exemplar. O profano é o exato inverso disso: não participa do Ser e se mistura. Propagados como objetos sagrados, os sabonetes Purificação Espiritual e Sessão Descarrego não passam de produtos industriais, destinados ao consumo ordinário e, como tais, despossuídos de sagrado. Confunde-se, então, sagrado e profano.

A Igreja Unilateral Republicana Brasileira, que é igreja-partido ou partido-igreja, é Senhora de uma estrutura incomparável a qualquer partido político; seu onipresente poder não ocorre apenas por razão da estrutura de milhares de igrejas, da estrutura de células, das estruturas televisiva e radiofônica, da estrutura do jornalismo impresso, mas sobretudo ocorre por sua estrutura ser incomparável em razão de sua linguagem funcionar de forma estruturante, disseminando, sistematicamente, igrejas, igrejolas, templos, células, TV, rádio, jornal. Essa linguagem é força ativa de um poder simbólico que se reproduz com a aparência de um destino inescapável. Mas qual sua natureza?

Quando uma sociedade tem como estrutura estruturante uma linguagem religiosa que substitui a imagem santa pela imagem da garrafa pet ou de um sabonete, essa mesma sociedade assiste a uma corrupção do sagrado, o que não deixa de ser um sinal de que a Unilateral não deseja apenas estar na política, mas deseja ser um profano poder (pseudo)teológico-político. Para tanto, essa igreja-partido se alveolizou de tal forma que sua linguagem iguala-se ao ar com que afeta os pulmões de fiéis quando respiram igrejicas, células, rádio, jornal, novelas bíblicas ou filmes autobiográficos. Sua linguagem ou seu ar, tão onipresente, não só atravessa os sentidos como se fixa na alma na condição de verdade segundo a palavra (interpretada) de Deus. Nesse sentido, um bispo-prefeito não tem eleitores; possui fiéis eleitores no jogo político, jogo que, segundo o apóstolo Lucas, o diabo concedeu, e Jesus recusou. 

* Professor de Filosofia