Quando a laicidade frágil do Estado põe em risco a saúde mental de toda uma população

Esta semana foi pródiga em exemplos de como não se deve misturar religião com Estado. E os exemplos são nefastos, muito nefastos. Não fosse a ironia suprema, eu qualificaria de diabólicos por falta de adjetivo mais preciso. Foi, por isso mesmo, um alerta sobre o projeto de poder de empresas…, quer dizer, de igrejas evangélicas caça-níqueis que estão menos preocupadas com as aflições do espírito de seus crentes e mais em lucrar e ganhar espaço político manipulando vergonhosamente a ignorância e a carência de seus seguidores e de uma população inteira de gente desvalida.

Primeiro, fi camos sabendo que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, convocou um convescote via WhatsApp de “bispos” de igrejas evangélicas do município para acenar com acesso fácil a cirurgias de cataratas e reduções de IPTU. Seu objetivo não pode ser mais claro e sua metodologia - aquele assistencialismo coronelista que amarra o país a um atraso secular -, mais vergonhosa. Com um pré-candidato de seu partido, o inacreditável PRB, sentadinho do lado, o prefeito escancarou como se usa a máquina pública em benefício do projeto de poder da “igreja” de seu tio Edir Macedo, a IURD. “Nós temos que aproveitar que Deus nos deu a oportunidade de estar na Prefeitura para esses processos andarem”, disse o prefeito, em discurso reproduzido em matéria de “O Globo”. Se isso não é usar a máquina pública para benefi ciar uma igreja eu simplesmente não sei o que é. Pedidos de impeachment do prefeito pipocam pelas redes sociais.

O mesmo “Globo”, que sempre evitou bater de frente com a comunidade evangélica e com seu articulador maior, Edir Macedo, deixou de lado a discrição e tratou de escancarar a situação em todo o seu cinismo num artigo em que associa a jornada de Crivella na Prefeitura do Rio com o projeto de poder de seu tio. Diz o jornal: “Lançado em 2008, o livro ‘Plano de poder’ do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, prega a entrada dos evangélicos no jogo eleitoral. “O que falta aos cristãos para se estabelecerem politicamente? Ações bem coordenadas”. Desde então, o PRB, partido ligado à igreja, só ganhou musculatura. Tem hoje 21 deputados em Brasília e saiu das urnas há dois anos com mais de cem prefeituras espalhadas pelo país. A principal delas, a do Rio de Janeiro, conquistada por Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo”. E ainda: “…nomear dois bispos da Universal para cargos estratégicos (João Mendes, na Assistência Social, e Jorge Braz no Procon) não entraria no requisito da mistura (entre Estado e religião)? Por acaso a religião do prefeito pesou na hora de cortar recursos de eventos como a Parada Gay e da tradicional procissão de homenagem a Iemanjá no Rio? Sequer pisar no Sambódromo em dias de desfi le das escolas de samba tem a ver com as crenças de Crivella? A negativa está sempre presente na fala ofi cial, mas a dúvida permanece no debate político”. 

A atitude de Crivella, que começou seu mandato apenas discretamente, deixando transparecer este mistura indigesta entre religião e política foi ganhando contornos mais escancarados com o tempo. Sua última polêmica foi vetar um projeto de lei que tornava o Quilombo da Pedra do Sal - e toda a sua importância para os movimentos negros e ligados a religiões de matriz africana - patrimônio imaterial do Rio. Teve que voltar atrás diante da indignação de muitos cariocas. Não nos esqueçamos que o mesmo prefeito já havia tentado sufocar a roda de samba que acontecia no mesmo lugar alegando que não tinha dinheiro para garantir a segurança do local. Levando isso em consideração, estamos diante de um mistério bíblico: desvendar de onde Crivella tira dinheiro para bancar cirurgias der catarata para crentes ou abdica de recursos públicos dando isenções de IPTU para empresas, quer dizer, igrejas evangélicas. Enquanto isso, na rede municipal de saúde, a população continua em filas de atendimento que fariam vergonha o próprio Jesus Cristo pela falta de empenho cristão.

Um dia depois do convescote crente de Crivella, foi a vez do inacreditável "pastor" Marco Feliciano perguntar, em sua página no Facebook, se depressão era um problema de saúde ou a atuação de demônios. Não é de hoje que pastores de araque ocupam horário de TV nas madrugadas para prometer a cura para distúrbios psicológicos que vão de ansiedade a síndrome do pânico alegando que todas essas doenças seríssimas seriam, na verdade, espíritos malignos incomodando pessoas de pouca fé. Custo a encontrar algo mais desonesto, moral e  intelectualmente, e até mesmo irresponsável, do ponto de vista da ciência, do que o discurso que busca “demonizar” doenças psicológicas que tanto a medicina quanto a psicologia e até mesmo a neurociência vêm estudando há décadas com conclusões embasadas em fatos.