Dicas do Aquiles: A renovação de Mauricio Pereira

“Saído da dupla Os Mulheres Negras, da qual também participou André Abujamra, Maurício Pereira não perdeu a verve. Muito menos deixou de lado a musicalidade que lhe dá asas à imaginação”. Com essas palavras eu saudei Maurício Pereira quando do lançamento do seu CD “Pra Marte”. 

Inquieto, a música está sempre fervilhando em sua cabeça. Nada o prende a regras nem a facilidades. Tendo ao lado os “Pereirinhas”, seus filhos Manuela Pereira, Chico Bernardes e Tim Bernardes, foi justamente um deles, Tim, que sugeriu “chamar um cara especial para produzir o disco”. 

E foi assim que para gravar o CD recém-lançado “Outono no Sudeste” (Tratore), Maurício traçou um caminho que incluiu um convite ao “especial” Gustavo Ruiz para produzir o trabalho. De fato, a sonoridade do CD atual é diferente da ouvida em seus discos autorais anteriores (também comentados aqui): o já citado “Pra Marte”, de 2007, e “Pra onde que eu tava indo”, de 2014.

Tim estava certo ao sugerir ao pai que buscasse caminhos ainda não pisados por ele, sejam melódicos ou harmônicos. Os arranjos das 12 músicas (três só de Maurício Pereira; nove com parceiros) foram inicialmente feitos coletivamente por MP, Tonho Penhasco e os instrumentistas do grupo. Foi a partir desse trabalho grupal que Ruiz chegou a arranjos com levadas tão pop quanto contemporâneas – e, de bom grado, a música de Pereira deixou-se impregnar por elas.

Pleno dessa criatividade a tampa abre: “A mais (Rubião Blues)” (MP e Dr Morris”. Graças ao bombardino (Amilcar Rodrigues) soando junto com a guitarra (Tonho Penhasco), encorpados por uma levada reforçada pelo baixo (Henrique Alves) e por alguns rufos da batera (Gabriel Basile), a intro realiza a proeza de ser, ao mesmo tempo, poética e enérgica. Proeza que se repete ao longo da música e, inclusive, num intermezzo da guitarra. Novas entradas do bombardino fecham a tampa. Bom início.

“Cartas pra ti” (MP) vem com um acorde dos sopros que inclui saxes soprano, tenor e barítono, tocados por Pereira. Com eles, uma tabla eletrônica acalora o ritmo. Canção arritmo, com acordes cheios acentuando os tempos fortes, além dos saxes, vêm trompete e bombardino. O arranjo veste com zelo o belo poema curto.

“Outono no Sudeste” (MP e Daniel Szafran) dá título ao CD. Bela e lenta canção, com detalhes da guitarra com distorção e do teclado, que Pereira canta emocionado. Sua voz é personalíssima – não há quem cante sequer parecido com ele. Um intermezzo do trompete, reforçado pelo baixo, chama o fim. 

“Maldita Rodoviária” (MP) tem uma intro longa e poderosa. Acordes se sucedem diante de uma levada pop, reproduzida no intermezzo. Maurício bisa algumas vezes os versos finais: “(...) Seco/ Mais um pária/ Nessa maldita rodoviária/ Vou procurar abrigo em algum ônibus”. 

Antes de terminar, reafirmo: a capacidade criadora de MP não teme o novo, ao contrário, vai a ele com a sofreguidão dos famintos. E a cada CD lançado o novo vem junto com Maurício Pereira.