Cidades globais

Cidades globais são metrópoles mundiais que funcionam como centros de influência internacional, articuladas à economia global. As ditas cidades globais são emblematicamente representadas por Nova York, Londres e Tóquio.

Os economistas avaliam que, nas últimas décadas, a globalização produziu alterações significativas na produção industrial, com a consequente redução da mão de obra empregada. Esse fato se deu tanto pela automatização das unidades produtivas, como também pela lógica do capital financeiro, que privilegia trabalhadores especializados nas áreas de serviços bancários, jurídicos e outras atividades correlatas, visando atender um fluxo veloz de informações e operações bancárias complexas.

Para que outras cidades do mundo periférico ingressem nesse novo universo de sofisticadas relações econômico-financeiras, será necessária uma transformação radical na formação e oferta disponível de mão de obra bem treinada e qualificada. 

As principais cidades brasileiras vivem, hoje, um quadro de grandes deficiências no atendimento dos serviços urbanos e, principalmente, na formação profissional de seus jovens. Essa situação se agudiza no Rio de Janeiro e em São Paulo, megalópoles com população acima de 10 milhões de pessoas nas suas regiões metropolitanas e um acentuado desequilíbrio nas suas organizações sócio-espaciais. 

A contradição está, então, colocada na divisão da megalópole em duas cidades díspares. De um lado, a cidade que se pretende global, de alta tecnologia de informação, que necessita de quadros profissionais bem formados, e de outro aquela de milhões de desempregados que, para não entrar em definitivo colapso, necessita de políticas voltadas para a dinamização da economia popular.

A cidade global, segundo teóricos do neoliberalismo, é o único modelo urbano capaz de propiciar sua integração na também global economia, e é pensada para o trabalho intelectual, secundarizando o manual. Nela priorizam-se os espaços providos de alta tecnologia de serviços públicos, como redes de fibra ótica, tele-informação etc., tornando-a mais competitiva e atrativa ao capital internacional, por oferecer bases tecnológicas que interessam a esse novo modelo econômico. 

De certa forma, a reurbanização de Barcelona, quando das Olimpíadas de 1992, foi ao encontro do modelo cidade-empresa, em que a iniciativa privada jogou um papel importante. No Brasil, a Copa e os Jogos Olímpicos serviram também para se tentar repetir o mesmo modelo testado em Barcelona. Procurou-se atrair grandes investimentos públicos e privados nacionais e internacionais, de modo a inserir o Rio e também São Paulo no rol das cidades mundiais em processo de globalização. 

A situação econômica interna e externa à época parecia animadora. Como o poder público não pôde sozinho arcar com todo aquele investimento, pois, afinal, existia uma outra cidade informal a carecer de serviços básicos fundamentais, convocou-se a iniciativa privada, agente operacional do capital financeiro, a assumir parte desses investimentos, visando obter vantagens econômicas, como dita a regra do capitalismo. 

Porém, o quadro econômico nacional e internacional se alterou, com o aprofundamento da crise em 2014. O capital financeiro global é volátil. Nômade por princípio, muda de território quando as condições não lhe são mais favoráveis, deixando para trás obras inacabadas. No Rio temos um bom exemplo do que aqui está a se dizer - o Porto Maravilha, modelo urbanístico frustrado da tão decantada cidade global. 

Intervenções exógenas em relação a sociedades e sua mais relevante criação – as cidades – sem respeitar sua realidade social, econômica e cultural, representam, a cada época, de formas diferentes, a dominação e a submissão de muitos a um poder hegemônico, o que justifica e legitima sempre a luta histórica e recorrente da autodeterminação dos povos. 

* Arquiteto e urbanista