Sonhar é bom

O brasileiro vive de circo nos dias em que correm a Copa do Mundo, que ocupa todos os espaços, sintetiza esperanças e aponta para possíveis soluções nacionais. Desaparece, por encanto e por momento, a separação entre nós e eles. Todos se unem na torcida pela seleção. Mas, vez por outra, acontece algo que melhora a autoestima do brasileiro no seu cotidiano. A possível união de esforços da Boeing com a Embraer é um momento especial na corrida do Brasil em direção ao fundo do poço.

A empresa surgida em São José dos Campos desenvolveu, de maneira penosa, sua própria tecnologia e começou, timidamente, a exportar aviões. O modelo Bandeirante foi o primeiro da lista. Depois surgiram outros mais sofisticados. E o primeiro produto de defesa aérea genuinamente nacional, que é o Tucano, foi vendido para vários países. A Embraer é uma história bonita, que começa muito antes de sua fundação.

O brigadeiro Casemiro Montenegro Filho, cearense sonhador, depois da Segunda Guerra Mundial decidiu criar uma instituição civil para desenvolver tecnologia aeronáutica, semelhante ao MIT (Massassuchets Institute of Tecnology) nos Estados Unidos. Na época, o Brasil importava até penico, mas o brigadeiro planejava fabricar aviões no interior de São Paulo. O ITA surgiu em um terreno abandonado perto da cidade de São José dos Campos. Enfrentou pesada oposição dos próprios militares porque empregava professores e alunos civis com ideias e procedimentos muito liberais. Os primeiros prédios foram projetados por Oscar Niemeyer. 

O propósito do brigadeiro era atrair boas cabeças e técnicos fugidos da Segunda Guerra. Chegou a ensaiar uma operação com a Fokker holandesa. E iniciou as pesquisas avançadas, numa época em que o comando da Força Aérea Brasileira achava que avião a jato era moda passageira. A semente do notável crescimento da Embraer foi plantada nos anos 50. Deu frutos. Quem quiser saber mais sobre essa aventura precisa ler “Montenegro – as aventuras do Marechal que fez uma revolução nos céus do Brasil” (Fernando Moraes, 2006, Editora Planeta).

Os meninos barbudos liberais ou comunistas elevaram a empresa brasileira ao terceiro lugar entre as grandes. O mundo voa em aviões Boeing ou Airbus. Existem concorrentes menores na China, na Rússia e no Japão. Mas nenhum deles tem capacidade de atingir os protagonistas do setor. A concorrente direta da Embraer é a canadense Bombardier, que foi adquirida, recentemente, pela Airbus. Neste momento, o mercado prefere aviões menores para atender à demanda de pequena e média distância. Os grandes aviões deixaram de ser prioridade. Abriu-se uma avenida comercial à frente da Embraer. Restou à Boeing a opção de se associar à brasileira para não criar sua própria linha de aviões pequenos e médios.

Esse é o raciocínio que orientou o negócio avaliado em US$ 4,75 bilhões. Surge uma nova empresa, resultado da associação da Boeing com a Embraer, que receberá da norte-americana US$ 3,8 bilhões. Essa empresa vai trabalhar na produção de aviões de médio e pequeno porte destinados à aviação comercial. As áreas de defesa e segurança e de jatos executivos ficaram fora do acordo. As duas empresas informaram que vão criar outra joint venture para a área de defesa. 

“Esse acordo com a Boeing criará a mais importante parceria estratégica da indústria aeroespacial, fortalecendo ambas as empresas e sua posição de liderança do mercado mundial”, disse Paulo Cesar de Souza e Silva, presidente da Embraer. O brigadeiro Montenegro, falecido em Petrópolis (RJ) no ano 2000, aos 96, deve abrir o melhor champanhe, onde estiver. Perseverar no propósito é tudo o que o brasileiro precisa atualmente. No cenário político há um deserto de ideias e projetos. O Brasil já foi melhor. Sonhar é bom. 

* Jornalista