Sempre aos domingos: Os esforços para controlar as notícias falsas vão muito além das redes sociais

É extremamente positivo ver a mídia, as grandes plataformas digitais – e talvez não sejam a mesa coisa? – como Google e Facebook e até o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se empenharem finalmente para colocar para funcionar esquemas de combate aos conteúdos falsos, as chamadas “fake news”, ainda que às vésperas das eleições. Há quem aposte que esta disputa eleitoral seja talvez a mais sujeita a todo o tipo de influência, para o bem e para o mal, de grupos de manipulação digital. Esta semana, a revista “Época” fez uma excelente radiografia de como trabalham esses grupos na tentativa de linchar moralmente seus desafetos – com enormes implicâncias na vida off-line também. É bom lembrar que, nas eleições de 2014, robôs que criavam perfis falsos capazes de divulgar em massa informações nas redes sociais, chegaram a ser responsáveis por cerca de 10% do debate online, de acordo com o estudo “Robôs, redes sociais e política no Brasil”, da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas.

Então foram bastante bem-vindas as seguintes iniciativas:

1. A assinatura de um memorando de entendimento entre o TSE, o Google e o Facebook em que as empresas se comprometem a “combater a desinformação gerada por terceiros”, levando em consideração as boas práticas e o respeito aos direitos humanos. Outro memorando foi assinado com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) na mesma linha.

2. Na sequência, um grupo de 24 veículos de imprensa brasileiros se engajaram no projeto Comprova, uma iniciativa do First Draft, centro de estudos jornalísticos ligado à Universidade de Harvard e que consiste num esforço coletivo para combater as “fake news” através de checagens das notícias entre si antes da publicação. Movimento semelhante aconteceu durante as eleições francesas ano passado e foi chamado de CrossCheck. Este grupo trabalhará sob a coordenação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), com apoio do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Prtojor) e financiado pelas gigantes citadas acima: Google e Facebook. O trabalho começa dia 6 de agosto.

3. Este trabalho brasileiro faz parte do que, em março, o Google anunciou como  a Iniciativa Google Notícias (ou Google News Initiative, em inglês) que é um somatório de parcerias como a descrita acima, produtos e programas para garantir que ferramenta de busca isole as notícias falsas das pesquisas de seus usuários.  

4. Projetos de leis estão tramitando no Congresso com o objetivo de criminalizar a criação e compartilhamento de notícias falsas. Como em tudo fabricado pelo saco de gatos que é o Legislativo brasileiro, há boas intenções cercadas de inconsistências, como punir a divulgação de “fake news” sem a devida definição do que seja notícia falsa. Uma delação de um criminoso implicando um político no escândalo qualquer é notícia jornalística ou mera ilação, passível de ser considerada “informação mal-intencionada” até que uma prova material surja? Parece besteira, mas é um questionamento que se faz desde o surgimento das delações premiadas como “indício de crime” e, muitas vezes, “prova do próprio”. E as informações manipuladas travestidas de jornalismo isento, produzidas por muitos dos veículos que agora buscam controlar as notícias falsas? Podem ser classificadas como “fake news”?

O assunto é importante e decisivo num momento brasileiro em que se vive uma desconfiança bíblica em relação à classe política, em que mais de 60% das pessoas se informam em redes sociais, onde a desinformação é mais regra que exceção e em que a mídia mergulhou numa espiral de perda de credibilidade que impede a migração, para o online, da sua base de leitores tradicionais, com exceção dos que comungam das mesmas opiniões políticas e que se vão com a idade avançada.  

Mas há no negócio das redes sociais e ferramentas digitais como o Google uma coisa chamada algoritmo que destaca, para cada um nós, mais aquilo com os quais nos identificamos ou desejamos, do que conteúdos isentos propriamente dito. Estamos falando de ampliar a interação e nada melhor do que ampliar a interação com um vídeo de cachorrinhos fofos do que uma entrevista enviesada no Roda Viva. E é aí que os esforços precisam ser redobrados. Ou melhor, multiplicados por trocentas vezes, porque os algoritmos vão ficando mais inteligentes a cada navegação do usuário. 

E há o insondável. Porque uma das maiores plataformas de compartilhamento de “fake news” são os grupos de WhatsApp, Telegram ou Messenger, as chamadas “dark social” (“dark” no sentido de que o que acontece ali acontece no escuro, sem a interferência de terceiros).  Se as mensagens criptografadas não passam pelo crivo de todos os atores citados acima quando compartilhadas nos grupos de família e de trabalho, como controlar as notícias falsas que se espalham por ali? 

Estas eleições prometem grandes emoções em torno da verdade, que, justiça seja feita, é um conceito que nunca andou exatamente de braços dados com a política, especialmente em anos eleitorais. Apertem os cintos, outubro está logo ali.