Guardiãs da floresta conectadas ao mundo

É errado pensar que as sociedades indígenas são imutáveis, monolíticas. Assimilamos hábitos como qualquer cultura. Já fazíamos isso muito antes do europeu chegar aqui. Adotar novos costumes não significa abrir mão de tradições. O português não vem mais ao Brasil de caravela nem usando roupas inadequadas aos trópicos, como no século 16. Mas continua festejando o Natal no dia 25 de dezembro, como naquela época – até mesmo comendo farofa feita com a nossa mandioca. Colonizadores também foram influenciados por colonizados. Usamos roupas de algodão e celulares, mas ainda cultuamos nossos mitos e ancestrais e vivemos em constante conexão com a natureza. Nossas tradições são instrumentos, ferramentas ou objetos que nos definem como indígenas.

Como a maioria das sociedades do mundo, boa parte das nações indígenas é patriarcal. Se em algum momento esse arranjo se fez necessário, é porque isso faz parte das diversas culturas indígenas. Sou Baré, mas conheço um mito Munduruku que falava de um tempo em que as mulheres mandavam. Não precisa ser, necessariamente, assim: mais importante é que se mantenha o respeito entre os indivíduos. Que se reconheçam suas qualidades, independentemente de gênero ou etnia. O mundo está conectado e sabemos que está passando por um momento de violentas transformações. Nós, mulheres do mundo todo não podemos nos dar ao luxo de sermos meras espectadoras numa hora tão decisiva. 

A mulher de hoje também não é a mesma de 500 anos atrás. Ela sabe que lhe cabe um novo papel no mundo. E não faz isso somente por afirmação, mas por saber que é necessário. O movimento de mulheres indígenas está ligado ao movimento feminista mundial. Nossas escolhas vão determinar o nosso futuro. Não podemos abrir mão de nossas experiência e intuição. A Terra é mãe.  

Sou a primeira mulher a assumir a liderança da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Quem pensaria nisso há alguns anos? Aliás, quem pensaria na própria existência da Coiab? Isso foi possível porque descobrimos que, embora tenhamos muitas diferenças (outro equívoco recorrente: índio é tudo igual), as lutas de todos os povos originários da Amazônia são semelhantes, dentro da nossa diversidade. Nossos adversários usam a mesma tática e seu objetivo é o mesmo: expulsar-nos de nossas terras para explorá-las sem responsabilidade. 

As novas tecnologias são usadas contra nós, por que não a usar em nosso favor? Os povos da Amazônia vivem numa extensão de terra maior do que a maioria dos países, muitos de nós só fomos nos conhecer há pouco tempo. Graças a elas, podemos trocar experiências com mais frequência. Elas permitiram realizar quatro eventos este mês, na Universidade Federal do Amapá, em Macapá: o II Encontro das Mulheres Indígenas Amazônicas; a IV Cumbre Amazônica — Amazônia Viva, Humanidade Segura; o Congresso Geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica); e o I Chamado dos Povos Indígenas do Amapá e Norte do Pará. Somos guardiãs da floresta e vamos fazer de tudo para defendê-la. E nunca deixaremos de ser indígenas e mulheres.

* Primeira mulher à frente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira