Derrubando os muros

Vivemos sob a égide dos muros. Sejam eles concretos, como o do Trump, ou simbólicos, como os que vêm dividindo povos, religiões, classes sociais e ideologias. Eles servem para dar invisibilidade aos que ficam do “outro lado”, promovendo a discriminação, a exclusão e até o extermínio. Afinal, o outro é visto como tão inferior que perde a condição de ser humano e o direito de viver.

Estamos falando de tipos extremos de muros, mas existem outros menos evidentes e com sérias consequências. Refiro-me aos muros que dividem setores e atores que atuam no campo social. 

Nos governos, por exemplo, a burocracia moderna, organizada de forma hierárquica e setorial, consolida a lógica de “silos”, que não se conversam e disputam orçamentos e poder político. O que mais justificaria, por exemplo, a existência de agentes comunitários de saúde que visitam os domicílios mais pobres, mas que não incluem, entre suas funções, a identificação de outros problemas que podem estar afetando essas famílias. Assim, cada setor reivindica seu próprio agente comunitário, multiplicando os custos e diminuindo a eficiência. Será que não poderia haver um agente comunitário social, com funções intersetoriais?

Isso sem falar no muro federativo que divide os níveis de governo. Se os partidos são diferentes, as divisões parecem intransponíveis. Mesmo quando são do mesmo partido, grupos rivais podem inviabilizar as ações conjuntas. 

Na sociedade civil, a novela também é bem conhecida. Organizações disputando financiamento, buscam  sobreviver em carreira solo e tendem a refutar a associação com seus pares. Por outro lado, diferenças ideológicas podem inviabilizar a parceria com governos ou empresas.

No mundo empresarial, os muros estão na cultura competitiva, típica do setor, e no forte preconceito contra governos e organizações do terceiro setor.

Com isso, os muros pulverizam os esforços, fragmentam as ações, aumentam os custos e diminuem os impactos. Vivemos hoje a chamada “tempestade perfeita” no campo social. Por um lado, os problemas são cada vez mais complexos, graves e urgentes de serem enfrentados. Por outro lado, faltam recursos nos três setores e todo o esforço parece pulverizado e inócuo. 

Nossas crianças mais pobres estão nascendo sem as condições para o desenvolvimento pleno de suas potencialidades, não aprendem nas escolas ou são mortas dentro ou fora delas. Nossos jovens abandonam os bancos escolares antes de concluírem sua educação básica, embarcando no desemprego, subemprego ou atividades marginais. Entram no “sistema socioeducativo”, morrem ou constituem novas famílias, tão ou mais pobres e vulneráveis quanto as originais. Estamos desperdiçando nossa principal riqueza: a nova geração de brasileiros.

Enquanto isso, do outro lado do muro, as pessoas, acuadas pelo medo, apoiam propostas simplistas como a do “extermínio do mal”, acreditando que bandido bom é bandido morto, a diminuição da maioridade penal ou a permissão do porte de arma para as “pessoas de bem”.

A sociedade precisa se conscientizar de que não haverá solução viável sem que se explodam esses muros. Os governos precisam ganhar legitimidade para convocar todos os setores e níveis de governo para uma grande parceria em torno de uma agenda social comum. Só através da identificação de propostas mais efetivas e da integração de esforços será possível aumentar os impactos, mesmo num contexto de penúria como o que vivemos.

Por onde começar? Se quisermos refundar este país, temos de constituir um grande pacto pela primeira infância. Se desejarmos estancar a sangria, o foco deve ser a juventude. Ou os dois. 

Essa proposta deveria constar do programa de governo dos candidatos comprometidos com o futuro da nação. Se estiver, têm meu voto!

* Diretora do Instituto Synergos Brasil