Marketing e políticas sociais

É impressionante a platitude de nossos governantes em relação à descontinuidade das políticas públicas e programas entre uma administração e outra. O velho discurso de que serão mantidos os projetos que deram certo é retórica de palanque eleitoral. Ao assumir a cadeira, o novo governante trata logo de apagar qualquer marca do seu antecessor e de buscar novos projetos-símbolos de sua gestão. Ao marketing cabe a tarefa  de fazer a população esquecer o que já foi feito de bom e esperar com fé o que ainda há de acontecer. 

Aqui no Rio de Janeiro essa anomalia administrativa chega a situações que beiram a irresponsabilidade. Quando se observa no noticiário áreas deflagradas, com tiroteios permanentes e vidas que se perdem diariamente, logo vem a pergunta: onde está o poder público que, com sua omissão em garantir os serviços mínimos e essenciais, perdeu o controle desses territórios para o poder paralelo criminoso? 

As favelas do Rio de Janeiro, nas três últimas gestões municipais, incluindo a atual, não receberam atenção adequada por parte das autoridades competentes, o que só contribuiu para este quadro de descontrole e de desesperança.

Não teve continuidade, nos últimos governos, todo um acúmulo de experiências de quase quatro décadas de trabalho, realizado por técnicos e líderes comunitários, que construíram um acervo de práticas e conhecimentos cumulativos os quais se materializaram em programas como: Cada Família um Lote; Urbanização de Favelas; Favela Bairro.

No início do primeiro governo de Eduardo Paes foi lançado com pompa e circunstância um novo programa, o “Morar Carioca”, que não saiu do papel. Na ocasião, trombeteava-se que essa nova proposta iria além da anterior, o Favela Bairro, pois não só transformaria a favela em bairro como a inseriria definitivamente no tecido urbano em que ela se localizava. A pretensão era grande, não somente em relação ao conceito do programa, mas quanto à sua dimensão, pois o plano envolvia numa primeira fase 215 favelas.

Resumo da ópera: mais um projeto natimorto. Quase dez anos perdidos. Quanto não poderia ter sido feito para barrar o avanço das forças criminosas e violentas na guerra pelo domínio de territórios?

Aprendeu-se com o próprio fazer e trabalho que não basta uma obra de urbanização como instrumento de pacificação das comunidades, mas o que vem junto com ela é que estabelece um novo patamar de cidadania. 

O planejamento participativo com definição das prioridades das frentes das intervenções urbanas; a organização permanente da população no controle e no acompanhamento da obra; os programas sociais voltados para a inserção social e produtiva dos moradores; o aumento da consciência da população em exigir do Estado ações preventivas e permanentes de segurança, para que ela não seja oprimida por nenhuma das forças em conflito, são algumas das possíveis conquistas.

Triste é a sina dos pobres de nossas cidades, invisíveis para as autoridades e pelos segmentos de alto poder aquisitivo. Além de apartados em áreas sem infraestrutura, têm seus precários locais de moradia transformados em campos de guerra.

As eleições gerais estão próximas. É  hora de a população rejeitar aqueles que tratam os projetos sociais como ações de marketing, visando iludir as pessoas. Essa prática política para os que vivem na pobreza, além de covarde, contribui para que permaneçam vulneráveis e reféns da violência.

* Arquiteto e urbanista