Copa do Mundo: A Rússia como ela é

A Copa do Mundo oferece uma excelente oportunidade para reflexão política sobre o país anfitrião. Obviamente, é para lá que se voltam as atenções do mundo durante o evento. Os turistas, ao prepararem sua viagem, pesquisam sobre os hábitos e costumes do anfitrião. Os jornalistas que cobrem o evento, também. Dada a distância geográfica e cultural da Rússia em relação ao Brasil, fica a dúvida: como se posicionar sobre os aspectos políticos locais?  

Arrisco duas sugestões. Em primeiro lugar, tenha prudência. O fato de Putin ser tratado como causa de todos os males no mundo já é uma constante na mídia ocidental. Do Brexit à eleição de Trump, passando por Ucrânia e Síria, é tudo culpa dele. É obvio que a Rússia, assim como qualquer grande potência, tem interesse nesses acontecimentos. Porém, a “demonização da Rússia” só ganha terreno entre os leigos. A realidade é muito mais complexa do que a dicotomia oferecida pelo Ocidente.

Em segundo lugar, emita opiniões baseadas em conhecimento. Dada a visibilidade mundial de um megaevento esportivo, as clivagens da política interna tendem a ser exploradas por grupos de oposição aos governos. Assim, presidentes são vaiados em aparições públicas, ocorrem protestos e ataques terroristas são esperados. Como resposta, os governos reagem com o aumento da vigilância interna e medidas que limitam manifestações públicas, justificando suas ações como necessárias para garantir o sucesso do evento. Isso acontece, em maior ou menor medida, em todos os países que sediam as Copas, e na Rússia não está sendo diferente. A ênfase nas críticas, portanto, é fruto de diferenças entre os países e no modo como são vistos pelos jornalistas que transmitem sua opinião durante a cobertura do Mundial. 

A questão da Chechênia

Um exemplo serve para ilustrar meu argumento. Ao comentar a detenção de um ativista britânico contra a violência a homossexuais na Chechênia, uma apresentadora brasileira teceu comentários ao vivo sobre a Rússia não ser um país livre e não respeitar as minorias em seu território. Essa afirmação está de acordo com as manifestações do establishment ocidental, mas não condiz de maneira tão fidedigna com a realidade russa para esse caso específico. A Chechênia, assim como outras 20 regiões da Rússia, é uma República Nacional, o que significa que ela possui um grau de autonomia muito maior dentro da Rússia dos que as demais regiões. Sua população é de maioria muçulmana, fala outro idioma além do russo e suas leis e costumes são fortemente associados a sua tradição. Após duas guerras entre os anos 1990 e o começo dos anos 2000, a paz na Chechênia foi alcançada contra o interesse de grupos que queriam instaurar na região algo semelhante ao que o Estado Islâmico fez no Iraque e na Síria (talvez isso sirva como referência para entender o quão longe a sociedade chechena já esteve dos ideais democráticos ocidentais). Nos acordos de paz, a Chechênia reteve sua autonomia, algo que torna difícil a ingerência direta da presidência da Federação Russa sobre assuntos internos da República. Portanto, a mensagem do ativista preso, expressa no cartaz que ele carregava, “Putin não toma medidas contra a tortura de gays na Chechênia”, é válida e legítima, mas não de tão simples resolução quanto parece sugerir.

Pode-se argumentar que Putin não toma medidas porque o governo russo também persegue homossexuais. De fato, há na Rússia uma lei contra “propaganda homossexual”, que proíbe a divulgação de práticas “não tradicionais” de sexo a menores de idade. Em verdade, a lei quase não é aplicada (a pena para infração é uma multa e, desde 2013, quando a lei entrou em vigor, cinco pessoas em média são multadas por ano) mas esse tipo de ordenamento jurídico tende a alimentar o preconceito contra as minorias sexuais. 

Omissão do MEC e exemplo americano

A origem dessa lei é política: após o fim da URSS, a religião ortodoxa voltou a figurar como um dos elementos da identidade dos russos em um período de instabilidade generalizada. Os políticos, em busca de votos, apoiaram as reivindicações da Igreja russa, que vê o Ocidente como uma ameaça aos valores do país. O preconceito contra minorias sexuais é um fenômeno típico da Rússia? Não. Pelo menos dez países (Afeganistão, Bangladesh, Paquistão, Quênia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Cingapura, Uganda e Iêmen) tem leis extremamente violentas, e em alguns deles se prevê até a pena de morte para os gays. E os Estados Unidos? Lá, oito estados (Alabama, Arizona, Mississipi, Louisiana, Oklahoma, Carolina do Sul, Texas e Utah) proíbem que o assunto homossexualismo seja tratado nas escolas ou, em alguns casos, abordado especificamente de modo positivo, uma lei bem mais específica do que a da Rússia. Difícil não lembrar, também, da polêmica omissão pelo MEC dos termos “orientação sexual” e “identidade de gênero” da Base Nacional Comum Curricular, em 2017, em um país campeão mundial de mortes associadas à LGBTfobia, como é o caso do Brasil.

O que isso indica? Que a Rússia, assim como a maioria dos países, tem dificuldades em reconhecer a igualdade de direitos para minorias sexuais. Por que esses problemas na Rússia chamam tanta atenção? Porque a Rússia é sede da Copa do Mundo. Pode-se afirmar que a Rússia não é um país livre e não respeita suas minorias por conta disso? Se você acredita que todos os países citados acima, inclusive os Estados Unidos, não são livres nem respeitam as minorias, sim. Caso contrário, parece uma afirmação exagerada.

Um erro não justifica o outro

É claro que há sempre outras maneiras de se comprovar o maniqueísmo contra a Rússia. Alguém pode argumentar que a Rússia é autoritária porque o ativista pelos direitos gays foi detido por duas horas e liberado pela polícia em razão de uma lei que proíbe manifestações públicas sem autorização prévia em determinados locais durante a Copa. Isso é a exceção? Não. É comum que Estados adequem sua legislação em períodos extraordinários. Nesses casos, para a restrição às manifestações não importa se as causas são legítimas ou não. Veja-se, por exemplo, o caso do Canadá recentemente. Um pouco antes do início da Copa, a polícia de Quebec proibiu manifestações públicas durante o encontro do G7. As manifestações seriam legítimas? Provavelmente, sim. Isso fez do Canadá uma ditadura? Obviamente, não. 

Existem inúmeros outros exemplos e, para cada um, poder-se-ia apresentar contraexemplos que ajudam a verificar se o que é atribuído de negativo à Rússia é, de fato, um fenômeno restrito ao país ou algo que acontece em outros lugares. Não se trata de justificar um erro com outro, como bem destaca o ditado em inglês “Two wrongs don’t make a right”. Trata-se, por outro lado, de refinar os critérios para opinar sobre um Estado distante e que conhecemos pouco, mas que passou a fazer parte dos nossos interesses ao sediar a Copa do Mundo. Quando atribuímos apenas defeitos à organização política de um país tão complexo e rico culturalmente, é provável que a origem dessa avaliação esteja baseada em preconceitos, e não em fatos. Enquanto os preconceitos são construídos pelos meios de informação a que temos acesso, a avaliação real, como vários brasileiros já perceberam, surge do contato com o russos e a Rússia. Para os que não podem visitar o país, um pouco de prudência e conhecimento são fundamentais para entender a Rússia como ela é. 

* Professor de Relações Internacionais da UFRGS/ESPM-Sul