Brincadeira machista

O vídeo com brasileiros machistas dizendo obscenidades a uma moça russa que, ingenuamente, repetia as grosserias, ainda dá o que falar. A reação de repúdio veio imediatamente. Homens, mulheres, jovens, idosos, quase todos criticaram a atitude desrespeitosa dos torcedores, que, conforme noticiado pela imprensa, receberão punição à altura na Rússia e no Brasil. Mas, como a repulsa ficou no “quase todos”, vale bater na tecla da necessidade e urgência da não normalização de ações que desrespeitam e diminuem a mulher. Seja numa Copa do Mundo, numa festa, na rua quando ela veste roupa curta, no ambiente de trabalho, na política ou dentro de casa. Não há mais lugar para o machismo.

Práticas machistas não podem mais ser encaradas como “brincadeiras”, embora a atitude dos torcedores que fizeram o país inteiro passar vergonha caiba numa das definições da palavra “brincadeira”, trazidas pelo Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa Caldas Aulete: “qualquer coisa que se faz por ostentação, imprudência ou leviandade, e que custou mais do que se esperava”. Os torcedores não só induziram a moça a repetir baixarias, como também a expuseram, já que eles próprios gravaram a agressão em forma de galhofa. O próprio dicionário usa a expressão “custou mais do que se esperava”, portanto, quando a “brincadeira” vem em forma de “ostentação, imprudência ou leviandade”, quem ousou brincar deve arcar com os custos. Está publicado.

Ainda sobre o “quase”: nas redes sociais e em mesas de bares houve quem defendesse os agressores com a tal alegação de “apenas uma brincadeira” e insistiu que as punições e reações contrárias foram desproporcionais. Pronto, argumento derrubado pelo dicionário. Quem brinca de forma irresponsável não pode reclamar nem se indignar com a contrapartida.

E, antes que venham classificar as fortes reações de indignação à brincadeira machista como disseminação ou discurso de ódio, vale lembrar que “discurso” não é algo meramente retórico, conforme comprovou Michel Foucault em sua vida de estudos filosóficos, históricos e sociais. Um discurso é formado por ações, ambientes e cenários, assim como pelas pessoas que o proferem. O fato de um grupo de homens cercar uma mulher e repetir palavras obscenas, sem que ela conheça o significado para reagir como lhe convier – isso sim! – pode ser definido como discurso de ódio. E como filosofia é um conjunto de conceitos que nos obriga a pensar, vale continuar nela e relembrar que lá no século 18 o controle do corpo alheio – que deveria ser disciplinado e dócil – fosse ele de um soldado ou escravo, era visto como sinônimo de poder. Talvez esteja aí a raiz do machismo, do sentimento de poder que certos homens têm em relação ao corpo da mulher, que – no entendimento deles – os dá o direito de desrespeitar, agredir, violentar. 

Três séculos e muitos feminicídios depois, está na hora de os machistas entenderem o quanto estão atrasados e como qualquer comportamento que demonstre o tamanho desse retrocesso deve ser repudiado. “Ah, mas essa brincadeira não pode ser comparada a feminicídio”, dirão os defensores dos torcedores-agressores. Pode sim, pois ambos são atos que violentam a mulher; o feminicídio, fisicamente. A brincadeira do vídeo, moralmente, psicologicamente. A Lei Maria da Penha – reconhecida pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo na questão de gênero – classifica a violência contra a mulher nas seguintes categorias: sexual, física, patrimonial, psicológica e moral. Pronto, está na Lei Maria da Penha – número 11.340/2006. E no dicionário. Pode ser brincadeira. Mas também pode ser crime.

* Jornalista