A nova revolução chinesa - Parte 2

Na semana passada, escrevi que as tarifas de importação impostas pelos EUA sobre a China tinham muito mais a ver com os planos do país asiático de se tornar uma superpotência mundial em tecnologia do que com déficit na balança comercial. O foco daquele artigo foi o Made in China 2025, programa que estabeleceu 10 áreas inovadoras para receber investimentos pesados do governo; neste, comento sobre o IA 2030 e a Belt and Road Initiative, os outros pilares da estratégia chinesa.

IA é o acrônimo para inteligência artificial, que, de forma simples, são sistemas capazes de raciocinar, descobrir, aprender e chegar a conclusões por conta própria, diferentes dos sistemas tradicionais, que desempenham apenas funções para as quais foram programados. A consultoria PwC aponta que esta tecnologia irá contribuir para um aumento de US$ 15,7 trilhões no PIB mundial em 2030. De olho em todo esse potencial, a China, ano passado, criou um programa exclusivo para tratar do assunto. O objetivo é fazer com que, até 2030, o país se torne uma referência global em inteligência artificial; o governo chinês estima que esta tecnologia vá gerar um mercado interno de US$ 150 bilhões e movimentar US$ 1,5 trilhão em outros setores.

O plano é dividido em quatro frentes: hardware, com desenvolvimento da indústria de chips e supercomputadores; banco de dados, que impulsionam os algoritmos de IA; atração e formação de profissionais especializados, além de investimento em P&D; e criação de um ecossistema comercial interno robusto. Apesar de o programa ser recente, alguns números já mostram como a China está se fortalecendo: em 2017, pela primeira vez, as startups do país na área receberam mais investimentos do que as americanas. Inclusive, a startup de IA mais valiosa do mundo atualmente é chinesa, a Sensetime, avaliada em mais de US$ 4,5 bilhões. Apesar dos EUA ainda serem dominantes, a preocupação com os asiáticos é tamanha que, em maio, o governo americano criou um comitê especializado no assunto, junto com membros do setor privado e da academia.

Os chineses têm pressa em evoluir em inteligência artificial, pois pretendem criar os padrões de uso dessa tecnologia, tal qual os EUA fizeram com a internet, fato este que facilitou as empresas americanas a se estabelecerem mundialmente. Para isso, aumentar a influência em outras regiões é essencial, o que passa pela Belt and Road Initiative.

Lançada em 2013, a BRI tem como objetivo oficial integrar diversas nações economicamente, criando rotas de comércio entre elas por meio de investimentos pesados em infraestrutura, notadamente ferrovias, rodovias e portos. São aproximadamente 70 países da Ásia, África e Europa, que correspondem a cerca de 65% da população e 40% do PIB mundiais. Porém, o projeto vem aumentando e a América Latina também se tornou alvo dos chineses. Apesar das cifras não serem claras, estima-se que o volume de investimentos esteja na casa de US$ 1 trilhão, entre capital público e privado. Os aportes têm levantado polêmica em alguns países, preocupados com o excesso de influência da China por lá.

Porém, engana-se quem pensa que tal influência se limita a nações modestas da Ásia e da África. Segundo levantamento da Bloomberg, nos últimos 10 anos, os chineses investiram US$ 318 bilhões em ativos variados na Europa, 45% a mais que os EUA no período. São mais de 360 aquisições, entre companhias de diversos setores, aeroportos, portos, fazendas de energia eólica e até clubes de futebol, sem contar participações acionárias em empresas de peso, como a Daimler AG, dona da Mercedes-Benz. Esses investimentos não só abrem novos mercados para outras companhias chinesas como também dão acesso a tecnologias de ponta desenvolvidas em outros países.

Por tudo apresentado nesses dois artigos, fica difícil duvidar das intenções e capacidades da China de se tornar a maior potência mundial na próxima década ou duas. Resta saber se tarifas de importação e outras sanções impostas por países ocidentais serão suficientes para impedir isso.

* Especialista em inovação e novas tecnologias