Estão nos despejando do Brasil

Quando o edifício Wilton Paes de Almeida pegou fogo e desabou, me perguntei se não teria algum conterrâneo lá. A Usina de Belo Monte não inundou só uma área equivalente a duas São Paulo, cidade onde aconteceu aquela tragédia, como as casas de mais de 40 mil pessoas, incluindo a de minha família. Muitos ribeirinhos foram assentados em conjuntos habitacionais na periferia, longe do Xingu. Era do rio que eles tiravam o seu sustento. Não me surpreenderia se algum deles fosse atrás de uma vida melhor na metrópole. 

Por outro lado, a população de Altamira, a maior cidade da região, cresceu 50%, desordenadamente. O prometido progresso não chegou, a violência aumentou e o desemprego e o abandono, também. No bairro Jardim Independente 1, por exemplo, 960 famílias convivem com inundações, em casas de madeira sem saneamento básico. Uma situação degradante. Por isso, não é difícil imaginar um vizinho meu fazendo o mesmo que o ribeirinho. Quando o prédio foi abaixo, uma informação veio à tona: são mais de 6 milhões de famílias contra 7 milhões de imóveis vazios; ou seja, tem mais casa sem gente do que gente sem casa. E me veio o estalo: seja no campo, na floresta ou na cidade grande, estamos sendo despejados de nosso próprio país. Em nome de quê?

Querem expulsar – por meios legais ou não – indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais de suas terras; as maiores plantações de soja pertencem a grandes corporações, e a população rural está desaparecendo, já que boa parte das lavouras é mecanizada. Louis Dreyfus Commodities, Mitsubishi, Brookfield Asset Management, Chongqing Grain Group, Cofco, Archer Daniels Midland, Bunge, Galtere, Cargill e outras multinacionais são donas de três milhões de hectares de terras no Brasil. Enquanto isso, a mineração mata os nossos rios. Aí o caboclo vai para a cidade grande tentar a sorte. E de lá quem o põe para correr é a especulação imobiliária. 

Belo Monte custou mais de R$ 30 bilhões aos cofres públicos, alagou uma área de 516km² e quem acompanha o noticiário sabe que a usina tem gerado mais escândalos políticos e propina do que energia elétrica. Eu morava na mesma rua desde antes do início da construção da Transamazônica. Minha família migrou do Piauí para o Pará em 1953, fugindo da estiagem. Minha trajetória de retirante involuntária começou por causa da indústria da seca e desaguou no curso do desenvolvimentismo insustentável.

Aqui venta e faz sol dia sim, dia também. Poderíamos usar esse potencial praticamente inesgotável para produzir energia. Mas preferiram construir a usina no Xingu, um rio que seca oito meses por ano. Caso sejam construídas as 43 grandes hidrelétricas projetadas para a Bacia do Tapajós, mais de 890 mil pessoas serão afetadas. O que gera lucro para as sociedades anônimas tem causado prejuízos imensos para a maior parte da população. O direito à moradia ao cidadão é previsto na Constituição. Não é plataforma de governo, é política de Estado. É fazer com que se cumpra a lei. O Brasil é a nossa casa.

* Coordenadora geral do Movimento Xingu Vivo Para Sempre