Alta de combustível e machismo

Caminhoneiros parados, país estacionado. O motivo, como informado exaustivamente pelos meios de comunicação, é a alta no preço dos combustíveis, mais especificamente do diesel que abastece os caminhões que movimentam a economia brasileira. Só nos últimos seis meses do ano passado a gasolina subiu 61 vezes e o diesel, 68. Em linhas gerais, os recentes e seguidos aumentos nas bombas foram ocasionados pela política da direção atual da Petrobras de repassar as variações do dólar e do petróleo no mercado internacional. A leitora e o leitor devem estar se perguntando o que um tema tão claramente econômico tem a ver com o machismo inserido no título deste artigo. Elementar, caros e caras. Entre tantos movimentos para cima nos números das bombas, nenhuma crítica mais grosseira ou, muito menos, uma ofensa violenta foi direcionada ao presidente Michel Temer. E nem deveria. A questão é complexa, mexe no bolso e no cotidiano do cidadão e deve ser debatida nos âmbitos político e econômico, jamais no de gênero. É o óbvio. No entanto, olhando pelo retrovisor dos mesmos motoristas e caminhoneiros dos protestos atuais, enxerga-se, facilmente, o machismo escancarado há pouquíssimos anos, quando, em um dos 16 reajustes de preços dos combustíveis nos 12 anos de governo do PT, a então presidente da República Dilma Rousseff foi alvo das mais baixas, agressivas e violentas ofensas já dirigidas – praticamente em uníssono – a uma autoridade política brasileira.

Na época, Dilma Rousseff foi retratada em posições sexuais em charges e piadas divulgadas na internet. No mais grave dos exemplos, o Ministério Público teve de ser acionado: a venda de um adesivo obsceno para carros em que uma montagem colocava Dilma de pernas abertas. A “obra de arte” – assim mesmo, totalmente entre aspas – foi fabricada como forma de protesto contra o aumento do preço da gasolina em 2015 e comercializada por um site de vendas. A repugnância causada pelo adesivo-protesto foi tamanha que a então ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, encaminhou uma denúncia ao Ministério Público Federal. O portal retirou o adesivo de circulação. A medida não impediu, entretanto, que a então presidente da República continuasse a ser xingada de termos como “vaca”, “vadia” e “vagabunda”, só para ficarmos nos adjetivos não considerados palavrões. 

Apesar de Dilma Rousseff ser do PT, um partido à esquerda, e Michel Temer ter direcionado seu governo por um caminho liberal, vale reforçar que o cerne deste artigo não é a questão ideológica, mas sim o debate de gênero e todo o preconceito embutido no tema. O problema é tão gritante que foi parar nas páginas do “The New York Times”, em 2016, quando um artigo chamou atenção para os ataques sofridos pelas líderes políticas na América Latina na época. O texto analisava os métodos de afastamento de Dilma Rousseff, passava pelo ministério sem mulheres de Michel Temer, atravessava as fronteiras do Brasil, abordava o processo judicial contra a ex-presidente argentina Cristina Kirchner e a queda de popularidade da chilena Michelle Bachelet, classificada por muitos como politicamente “fraca” por ser dona de um estilo mais colaborativo de gestão. Ironicamente, Dilma Rousseff, menos aberta a negociações, era rotulada de “dura” e “rabugenta”. Isso, só para ficar nas considerações políticas, sem entrar nos julgamentos de roupa, peso e outros quesitos absurdos ligados à aparência física.

Machismo, misoginia, discriminação, preconceito. Conceitos que ficam explícitos na comparação dos protestos atuais com os de poucos anos atrás contra o aumento dos combustíveis. Pode parecer surreal. Mas é fato. Só não vê quem não quer.

* Jornalista