A favela vive em Baco; a cidadela vive para Apolo

Cidadela é um termo que designava a parte mais central de um território. Como referência, podemos lembrar das fortalezas e seus castelos: aquela era a área mais protegida, mais próxima do poder, da riqueza e das regras institucionais. No caso da cidade moderna, a cidadela se revela como o espaço mais central e onde estão, da mesma maneira, as formas tradicionais de poder, riqueza e regulação da vida cotidiana pelo Estado. 

A favela, por sua vez, nos remete aos espaços fora dos muros, desprotegidos diante do ataque dos inimigos, dos “outros”, dos bárbaros. Ao mesmo tempo, surge como o espaço da liberdade, da vitalidade, da energia, do contato com outras formas da natureza. A cidadela, historicamente, despreza o que está fora dos seus muros, estabelece uma relação de utilização com esses territórios e não reconhece em seus moradores os mesmos direitos dos que nela vivem. 

Apolo e Baco são referências arquetípicas veneradas pelos antigos. O primeiro era o deus do dia, da geometria, da beleza, da razão. O segundo era o deus do vinho, do turbilhão, da transgressão, um deus libertário que afirmava o primado do desejo e da vida pulsante. O primeiro, um deus que se representa e nos remete, simbolicamente, ao homem branco, racional, ordenado e ordenador; o segundo, um deus que nos remete às negras e negros sensuais, libertos, que vivem com intensidade o presente, o aqui e agora, na criação de suas próprias regras. Não casualmente, a fala mais comum das pessoas que conhecem uma favela pela primeira vez é o deslumbramento com a intensidade, pulsação, movimento da vida, de todas as formas. 

A cidade plena que precisamos, na qual todos podem viver com mais direitos e plenitude, é uma cidade que valoriza, reconhece e venera Apolo e Baco, que busca o difícil equilíbrio entre um e outro. Para isso, os muros da cidadela devem ser rompidos, tanto pelos que nela vivem como pelos que estão fora deles. Afinal, são cidadãos de um mesmo território, unidos por muitas referências, necessidades comuns e desejos. Uns com muito a oferecer aos outros em termos de dignidade humana, inventividades, sociabilidades, acesso a serviços e equipamentos; acima de tudo, direito à vida, em todas as suas expressões. 

Isso começa com vários gestos: a abertura para o outro; o contato entre os espaços e as pessoas através de equipamentos e serviços acessíveis e comuns; o pacto pela vida; o repúdio a todas as formas de monstrualização, assim como o aprendizado pedagógico da convivência na diferença. Muito está se fazendo, no cotidiano, para que isso ocorra; e também o contrário. Assim, o desafio está colocado, com Baco e Apolo nos servindo de inspiração em nossa caminhada.

* Fundador do Observatório de Favelas, diretor geral do Instituto Maria e João Aleixo