Respeitem Allende

Diante da incompetência do governo Michel Temer e dos preços abusivos dos derivados de petróleo, não surpreende o apoio dos partidos da oposição e da maioria da opinião pública à greve dos caminhoneiros. Mas em meio à forte repercussão, há um ponto fora da curva. Trata-se da comparação dos fatos atuais com o boicote das classes produtoras ao governo de Salvador Allende, no Chile, no início dos anos 70. Tal paralelo é absurdo e profundamente desrespeitoso com a memória do presidente socialista chileno, alvo de um sangrento golpe militar, em setembro de 1973. Desculpem-me algumas vozes da esquerda, porém nada justifica comparar o movimento dos caminhoneiros em nossas estradas com as pressões dos Estados Unidos e da burguesia do Chile para derrubar Allende.

Vamos direto ao ponto: há um abismo entre o desgoverno Temer e a experiência socialista de Allende. O bravo Salvador Allende estava na alça de mira das grandes empresas e de Washington antes mesmo de se eleger, em 1970, na sua quarta tentativa. Nos informes ao Pentágono e à Casa Branca, o embaixador dos Estados Unidos no Chile, Edward Korry,  não escondeu seu temor: “Um governo de Allende será pior que um governo de Castro”. Segundo dados revelados em 2003, a CIA fez tudo para impedir a eleição do carismático médico. Além de comprar uma emissora de rádio, a CIA liberou milhões de dólares para o diário direitista “El Mercurio” e para entidades da classe empresariais. A multinacional ITT também fez desembolsos milionários para sabotar o candidato da esquerda. 

Por trás da conspiração estava Henry Kissinger, assistente do presidente Richard Nixon para Assuntos de Segurança Nacional. Eis a opinião de Kissinger sobre a eventual vitória de Salvador Allende: “É relativamente simples prever que, se Allende finalmente ganhar, é bastante provável que estabelecerá, com o passar dos anos, algum tipo de governo comunista. Nesse caso, teríamos um governo comunista num importante país latino-americano, e não numa ilha afastada da costa que não tem impacto na América Latina”. Kissinger moveu mundos e fundos, mas não conseguiu impedir a vitória de Allende. Veio, então, uma ordem sumária de Nixon: era preciso fazer a economia chilena “uivar de dor”. 

Cinco dias depois da posse de Allende, Kissinger distribuiu um memorando à CIA e ao Secretário de Estado com as principais determinações de Nixon para sabotar o governo socialista. “Os Estados Unidos vão maximizar as pressões sobre o governo de Allende para impedir sua consolidação e limitar sua capacidade de implementar políticas contrárias aos interesses dos Estados Unidos e do hemisfério”, frisou o documento. Entre as iniciativas, havia a exclusão da ajuda financeira e de garantias a investimentos no Chile e a pressão sobre as instituições financeiras internacionais. Em outro texto, Kissinger deu ênfase à ação política para debilitar a coalizão de apoio a Allende e ainda à necessidade de manter e ampliar contatos com militares chilenos. 

O caldo da receita antidemocrática aplicada por Washington foi engrossando até conquistar a adesão dos ministros militares de Allende. Em seu livro “Allende – Cómo La Casa Blanca Provocó Su Muerte” (editora Catalonia),  a jornalista e escritora Patricia Verdugo dá detalhes inéditos sobre o cerco ao presidente. E narra também como se deu a traição do comandante em chefe do Exército, general Augusto Pinochet, que se uniu à conspiração liderada pelo general Gustavo Leigh, da Força Aérea, e o Almirante José Toribio Merino, comandante da Zona Naval de Valparaíso. O golpe foi marcado para a segunda-feira 10 de setembro de 1973, mas ocorreu em 11 de setembro. Eis a anotação do adido naval da embaixada dos EUA no Chile: “Nosso Dia D foi quase perfeito”. 

Os golpistas ofereceram a Allende a possibilidade de abandonar o Palácio de La Moneda, seguir para o aeroporto e dali partir para o exílio com sua família. Ele rejeitou a oferta. No último contato, já sob forte bombardeio, Allende berrou ao telefone com um almirante: “Traidores de merda! Metam seu avião no c...! Vocês estão falando com o presidente da República! E o presidente eleito pelo povo não se rende!”. 

Horas depois, Salvador Allende matou-se com um tiro. Antes deu um grito: “Allende não se rende!”