Brasil, decifra-me ou te devoro

Muito citado, mas pouco compreendido em sua profundidade, o enigma da Esfinge de Tebas representa o problema do destino humano, da interrelação entre a consciência humana e seu destino, aparentemente representado pelo vazio da inexistência. Essa perspectiva pode provocar a alienação da mente humana, levando a comportamentos cruéis e aviltantes para o que seria considerado ser humano. Vivemos este momento intensamente no Brasil, dominados pela violência do crime e da corrupção hediondos, seguros de que o Estado brasileiro não tem projeto para enfrentar e reduzir essa violência em horizonte visível. 

Einstein, sabiamente, dizia que não se pode reparar as disfunções de nossa civilização utilizando os mesmos instrumentos que foram utilizados para construí-la. Certamente não se referia a soluções tecnológicas para materiais e equipamentos, mas a questões de gestão organizacional. O maior desafio para a busca de novos instrumentos para apoiar a solução de problemas não é a ignorância, mas o apego a pressupostos justificados pela necessidade de manter a aparente consistência lógico-racional.

Há um ditado persa que diz que há pessoas que não sabem, não sabem que não sabem e têm certeza de que sabem – essas são perigosas, afaste-se delas! Embora possamos reconhecer casos patológicos, inclusive na presidência dos EUA, esse ditado é uma metáfora para nossa atitude mental diante do desconhecimento em relação a possíveis soluções de nossos graves problemas nas áreas públicas, particularmente em saúde, segurança e educação. 

A despeito da inédita iniciativa do MP em utilizar métodos ardilosos para investigar e punir casos extremos de corrupção, essa questão é sutil e insidiosa, por sua natureza sistêmica e complexa e, como tal, resistente a mudanças, reforçada por mecanismos de rede, alicerçada em paradigmas impregnados na cultura profunda e inconsciente de nossas sociedades. 

A seguir, abordamos algumas descobertas recentes e surpreendentes, relacionadas a como utilizamos nossas mentes para decidir e participar na gestão de nossas organizações, e como esse conhecimento pode ser utilizado para mudar a percepção de nossas potencialidades e contribuir para as transformações culturais e organizacionais necessárias. 

Somos vítimas de processos dissociativos, decorrentes da natureza paradoxal da própria existência, o que dificulta, ou mesmo inviabiliza, a tomada de decisão coletiva em torno de objetivos comuns. Abordamos aqui, sucintamente, quatro paradoxos (a análise completa, de como gerenciar as polaridades resultantes, encontra-se no livro “Estruturação de Problemas Sociais Complexos – Teoria da Mente, Mapas Metacognitivos e Apoio à Decisão”, a ser lançado pela Editora Interciência em junho): 

- Paradoxo da localização hierárquica x distribuição – de coleta de informação, processamento e tomada de decisão. Não há um centro que determine hierarquicamente as decisões tomadas pelo cérebro humano. Na gestão de qualidade das organizações produtivas humanas observa-se a sucessiva incorporação de informação proveniente de agentes externos à gerência de qualidade. 

- Paradoxo interno x externo à fronteira que delimita um sistema (indivíduo ou organização). As Ciências da Natureza utilizam o conceito de isolamento para controlar o objeto de estudo, segundo o método científico de Popper. Entretanto, o pressuposto da Teoria da Regulação, de controlar um sistema através de um regulador externo e isento, mostra-se adequado apenas em casos extremos e infrequentes. 

- Paradoxo da metacognição x autoengano. A gestão da interface entre indivíduo e sociedade, com a identificação e preservação dos valores humanos e sociais, decorre não apenas de uma imposição legal, de normas sociais e ambientais, por exemplo, mas de uma conscientização para a realização do potencial de desenvolvimento humano. 

- Paradoxo da multiplicidade x identidade para gerenciar a dissociação e promover o diálogo. O físico David Bohm diferencia a discussão do diálogo: na primeira, cada parte acata todos os argumentos favoráveis ao seu ponto de vista e descarta, desqualifica todos os desfavoráveis. No diálogo, cada parte mantém, em perspectiva, ambos os tipos de argumentos, ainda que conflitantes. A excessiva ênfase na competição, como promotora do desenvolvimento, leva a uma prevalência da discussão sobre o diálogo, o que, segundo Bohm, não favorece o surgimento de inovações organizacionais. Rita Carter discorre sobe a multiplicidade interna, cuja ignorância conduz à dissociação excessiva e à hipocrisia generalizada. Aquele que, por exemplo, é autoritário com os outros, também é autoritário consigo mesmo. Os defeitos que menos toleramos nos outros são aqueles que nós mesmos temos. A multiplicidade manifesta-se nos personagens dos sonhos, nos estados hipnóticos, possessões e, patologicamente, em diversos transtornos de personalidade. Na verdade, a divisão interna é necessária para viabilizar tanto o autoengano como a metacognição. 

A conscientização para essas formas surpreendentes em que funcionamos no cotidiano pode promover um enorme avanço nas inteligências interpessoal e intrapessoal. Pode-se dizer, também, na inteligência emocional, social, intersubjetiva ou distribuída. 

O problema é que permanecemos alheios ao fato de que utilizamos diariamente modelos bastante ultrapassados sobre a natureza e a forma de utilizar nossas mentes. Ignorar nossa realidade interior não é uma atitude que contribua para as mudanças socias que almejamos e necessitamos. Preferir não saber que não sabemos é, ao contrário, uma atitude que pode levar ao colapso de nossa civilização. 

Ao lidar com os graves problemas sociais, as soluções propostas por autoridades são sempre de natureza legal ou financeira, embora ao final reconheçam que trata-se de um problema cultural. E, nesse caso, não há como implementar mudanças através da autoridade hierárquica. O conhecimento científico pode e deve contribuir para a resolução dos desafios atuais na gestão do desenvolvimento humano e social, mas dessa vez através da integração multidisciplinar entre as Ciências Hard e as Ciências Soft.

* Professor da Unirio e da Coppe/UFRJ, pesquisador do CNPq