Argentina sob ataque

A Argentina está sob ataque dos mercados e acabou tendo que recorrer ao FMI. O Banco Central foi levado a aumentar a taxa básica de juros para 40% ao ano (em comparação com taxas em torno de 6% a 8% na maioria das principais economias emergentes). A esperança é que essa pancada nos juros e o apoio do FMI desativem a corrida contra o peso argentino, a moeda que mais tem sofrido com a onda de desvalorizações provocada pela alta das taxas de juro nos EUA.  

O que aconteceu? A Argentina era celebrada nos mercados, desde a posse do presidente Mauricio Macri, em fins de 2015. O FMI vinha fazendo avaliação basicamente positiva da política econômica argentina, ainda que com a ressalva de que ajuste fiscal era excessivamente gradual. 

Não é a primeira (nem será a última) vez que economias celebradas pelo mercado dão com os burros n’água. Paradoxalmente, a própria celebração pode ser uma das causas da crise. O otimismo dos mercados abre possibilidades de financiamento externo e aumenta a oferta de capitais estrangeiros para o país. Muitos governos não resistem à tentação e seguem a linha de menor resistência que é o caminho do endividamento no exterior. 

No passado recente, a Argentina acumulou considerável vulnerabilidade externa. Não é por acaso que ela aparece como caso extremo entre os emergentes na conjuntura atual. Não é por acaso que ela caiu nos braços do FMI. 

Bem sei, leitor, que estatística mata qualquer conversa. Mas peço a sua paciência para mostrar alguns indicadores macroeconômicos que revelam duas coisas importantes: 1) a posição argentina é muito precária; e 2) ela é bem pior do que a brasileira. 

Na Argentina, o déficit de balanço de pagamentos em conta corrente (que inclui comércio de bens, serviços, juros e outras rendas do capital) cresceu rapidamente e se aproximou da marca perigosa de 5% do PIB. Uma parte pequena desse déficit vinha sendo coberto por investimentos diretos (uma forma geralmente mais estável de ingresso de capital). O grosso do financiamento estava vindo de endividamento externo, principalmente do setor público. Entre 2015 e 2017, a dívida externa da Argentina aumentou de 28% para 36% do PIB. 

O rápido crescimento do déficit externo resultou da retomada gradual da economia argentina (que levou a um aumento da demanda por importações) e de certa apreciação do peso argentino (que diminuiu a competitividade das exportações e barateou as importações).  Em dezembro de 2017, o FMI estimava a sobrevalorização do peso entre 10% e 25%, dependendo da metodologia de cálculo. 

Para agravar o quadro, as reservas internacionais da Argentina são relativamente baixas, apesar de certa recuperação no passado recente. Em dezembro, as reservas brutas alcançaram US$ 50 bilhões, o equivalente a apenas sete meses de importação de bens e serviços. Comparadas ao tamanho da economia argentina, as reservas do país são baixas: menos de 9% do PIB, em comparação com 20% do PIB no caso do Brasil e 15% no do México. 

Mesmo esse dado pode ser um pouco enganoso. As reservas líquidas eram da ordem de US$ 40 bilhões, uma vez que há obrigações de US$ 10 bilhões no quadro de um acordo de swap bilateral com o Banco Central da China. 

As autoridades argentinas tinham consciência do problema e chegaram a anunciar um plano de acumulação de reservas com o intuito de aumentá-las para o equivalente a 15% do PIB, nível mais próximo do que se observa em outros países da América Latina. Estranhamente, o FMI desencorajava esse plano. Apesar de apontar a sobrevalorização do peso e o aumento do desequilíbrio externo, o staff do FMI recomendava adiar a acumulação de reservas com o argumento de que isso pressionaria a taxa de câmbio nominal e dificultaria o combate à inflação. 

Como fica o Brasil? A nossa posição é claramente mais forte. O déficit de balanço de pagamentos em conta corrente é pequeno, inferior a 0,5% do PIB nos 12 meses até março. A entrada de investimentos diretos supera 3% do PIB no mesmo período. Ainda que a recuperação da atividade leve a um aumento do déficit, dificilmente nos aproximaríamos de níveis perigosos no horizonte visível. Além disso, as reservas internacionais brutas são altas, como mencionado, e o estoque de swaps cambiais é de apenas US$ 24 bilhões, segundo o Banco Central. 

As reservas internacionais de cerca US$ 380 bilhões constituem uma herança positiva do período Lula e, em menor medida, do período Dilma. O Brasil começou a acumular reservas para valer a partir de 2006 e isso tem nos proporcionado tranquilidade importante em momentos de turbulência. 

Na época em que o nosso país começou a reforçar a sua posição de reservas, eu era diretor-executivo no FMI pelo Brasil e outros países. Posso testemunhar que o staff do FMI sempre foi crítico desse nosso esforço de autoproteção. Insistiam em argumentar que o nível de reservas estava acima do requerido e que não valia a pena incorrer o custo em mantê-las. 

Compreensível. Afinal, o que seria do FMI se todos os países fossem prudentes?

* Economista, foi diretor-executivo no FMI e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS entre 2015 e 2017