Clube da luta feminista

Para começar, o merecido e obrigatório crédito ao título do artigo: trata-se de um livro escrito por uma jornalista americana, que descreve atitudes machistas – escancaradas ou não – das quais as mulheres são vítimas diariamente nos variados ambientes de trabalho. Agora, o artigo: 

“Histeria já foi o diagnóstico médico generalizado para uma mulher com ‘problemas’ – usado para ‘explicar’ qualquer coisa, desde ansiedade e insônia até falta de desejo sexual. No entanto, o tropo da mulher ‘louca’, ‘desequilibrada’, ‘emotiva’, ‘destemperada’ e ‘histérica’ persiste: é uma resposta machista padrão para aquela ex que parou de te ligar, a mulher que ousou dar uma ordem no escritório, ou qualquer uma em Hollywood que – nas palavras de Tina Fey – ‘não para de falar, mesmo depois que ninguém mais quer trepar com ela’. Não há provas conclusivas para a teoria de que mulheres sejam de fato mais emotivas no trabalho. Mas há pesquisas que indicam: a emoção feminina é percebida de forma diferente que a masculina”. 

O trecho é do livro que deu título ao artigo. Escrito, ilustrado e diagramado de forma leve e bem-humorada, “Clube da luta feminista – um manual de sobrevivência (para um ambiente de trabalho machista)” é obra da jornalista Jessica Bennett, que assumiu a nova editoria de questões de gênero do New York Times. A publicação estava exposta na livraria numa estante bem visível, destinada a “estudos de gênero”. Tanto a editoria de um dos mais importantes jornais do mundo, quanto o destaque nas grandes livrarias brasileiras deixam claro que o debate sobre machismo, feminismo e questões de gênero saltou dos grupos de estudos filosóficos sobre Judith Butler e Simone de Beauvoir – entre outras intelectuais que compraram a briga antes mesmo que muitos percebessem que a briga existia – para espaços acessíveis e diversificados, que vão além das paredes da academia. 

Salto positivo? Claro. Dedo mágico da internet? Indiscutível. Motivo de preocupação? Algum. Difusores de discursos machistas, homofóbicos e racistas se dão voz e ouvidos pelas redes sociais. Manifestações de ódio a todo tipo de minoria emanam pelos alto-falantes de compartilhamentos online. A confusão entre liberdade de expressão e apologia da violência está por toda parte. Por tudo isso, merecem aplausos as colunas, artigos e reportagens feministas que ganham espaços em jornais e revistas do mundo inteiro. O jornalismo feminino – sobre cabelos, roupas e culinária – tem sido substituído pelo jornalismo feminista – sobre mercado de trabalho, aplicações financeiras, empoderamento, espaço de fala para todas as raças, classes sociais, transexuais e transgêneros. Os livros sobre feminismo saem dos cantos das livrarias para prateleiras de destaque. A capa sisuda é substituída por cores vivas, letras modernas e títulos que impactam. E o melhor é o que vem nas páginas:

 “Que mulheres poderosas sejam o normal: como me disse a economista Sylvia Ann Hewlett certa vez, o problema não são as mulheres – mas o fato de ainda definirmos liderança em termos masculinos. Então use sua doçura, sua ambição ou uma combinação das duas para chegar ao bendito poder de uma vez por todas. Torne a ambição um traço feminino. Vá trincando aquele teto de vidro aos poucos sem pedir desculpas. E quando você tiver ascendido ao topo de modo brilhante, lembre-se do seu dever de integrante do Clube de Luta Feminista: o de levar outras mulheres junto com você”. Feminismo é luta séria e, muitas vezes, dolorida. A execução de Marielle Franco reforça isso a todo momento. Mas Marielle ria, amava e adorava carnaval. Portanto, sempre que possível, a leveza e o bom humor devem ser usados como armas.

* Jornalista