Uma visão sobre Lula

O Brasil vive uma crise democrática de dimensões gigantescas. Já viveu outras, desde que reconquistou a democracia nos anos 80, mas talvez nenhuma como esta. As circunstâncias são diferentes da crise que vivem hoje as democracias europeias. O drama a que assistimos, da polarização política extrema, tem a ver com um nível de corrupção em larga escala, que envolveu um partido que prometeu restituir a ética à política e acabou afogado num nível de corrupção difícil de imaginar. Mas ver Lula condenado a 12 anos de prisão, na cadeia, não tem nada a ver com ser de esquerda ou de direita, como algumas mentes bem-pensantes acreditam. Tem apenas a ver com o que significou a sua ascensão ao poder, a esperança de que o Brasil começasse a combater uma desigualdade social das maiores do mundo e a assumir maior responsabilidade internacional ao lado das democracias ocidentais.

O Lula que chegou ao Planalto não tinha as características ideológicas de seu partido. Não era contra a globalização. Não era contra a América. Manteve sempre uma boa relação com Bush. Não era contra a economia de mercado. Deve-se, em boa medida, a seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, o fato de ter sido eleito presidente. FHC deu uma nova oportunidade à política e à economia brasileira, com seu Plano Real, acabando com o imposto que mais castiga os pobres: a hiperinflação. Um dos maiores erros do PT foi ter diabolizado sua política, dita “neoliberal”, tentando ficar com os louros de um crescimento econômico sustentado. Lula era um moderado, começou por ser assim e, por isso, foi alvo da admiração das democracias. 

O problema foi que o PT não levou muito tempo a mostrar sua verdadeira natureza. O caso “Mensalão” decapitou as lideranças que o levaram ao poder. A Justiça atuou, como prova a condenação à prisão de alguns dos seus nomes mais sonantes (a começar por Dirceu). Lula conseguiu passar pelos pingos da chuva. Ninguém queria (ainda) derrubar o ícone. Conseguiu o seu segundo mandato, mesmo que só no segundo turno. Rapidamente, começaram a vir os tiques da velha esquerda latino-americana, que ainda se vê com o direito divino de governar porque o faz em nome dos “pobres”. Dilma era muito mais ideológica do que o seu criador. Tinha uma virtude: ninguém a conseguiu acusar de corrupção. Começou bem, demitindo ministros em série, perante a mera suspeita de mau comportamento ético. 

Ainda estava para chegar a operação Lava Jato. Já foi ela que teve de enfrentar a onda de reivindicações que a nova classe média que Lula tinha conseguido retirar da pobreza, começava a exigir. Não era apenas o frigorífico e a casa. Era o direito à saúde e à educação condignas, a troco dos seus impostos. Era já um outro Brasil que emergia, não o Brasil que elegera Lula. A segunda vitória de Dilma, em 2014, foi justa, mas por uma margem mínima. Acabou por revelar-se uma maldição, ao dar mais quatro anos a um partido que já estava no poder há 13 e que estava prestes a mergulhar no maior escândalo de corrupção da história da democracia brasileira.

A alternância faz bem às democracias, quando é feita nas urnas. A sua destituição foi uma manobra política absolutamente imprópria de uma democracia madura. A “destituição” política do PT acabou por ser conferida aos juízes, atribuindo-lhes a tarefa de levar a cabo aquilo que os políticos não foram capazes de fazer. Goste-se ou não, essa “transferência” acabou por politizar a Justiça. Podemos acreditar que as suas decisões foram em conformidade com a lei, que deve ser igual para todos. Mas isso não significa que funcionem, como às vezes se pretende, fechadas numa bolha na qual a política não entra. Dizem os puristas que Lula cometeu atos de corrupção e, como ninguém está acima da lei, deve ser preso. É verdade, mas não é toda a verdade.

A prisão de Lula não deixa de ser uma tragédia para aquela parte do mundo constituída por “homens de boa vontade”, que acredita na democracia e na importância dos líderes que se mostram capazes de conduzi-la para o bem comum. Lula começou por ser isso. Acabou por ser ele próprio, já escrevi, a matar o ícone. O poder, muitas vezes, embriaga, sobretudo quando é exercido por demasiado tempo. E Lula (como o PT) não conseguiu perceber até que ponto o Brasil tinha mudado. 

Ouvimos dizer insistentemente, nesses últimos dias, que a prisão de Lula visa eliminar sua candidatura, que é a que neste momento recolhe maior apoio popular: 30%. Não é bem assim. Lula saiu do Planalto em 2010 com 80% de apoio popular. O número prova à saciedade que ele não era apenas o candidato dos pobres e dos que começavam a ter uma vida melhor. Perante isso, os 30% atuais não são nada ou muito pouco. O PSDB ainda não fez a sua escolha e o partido de Temer, que costumava fazer e desfazer candidaturas (dos outros), ainda não disse ao que vinha. A tragédia de Lula, que é a tragédia do Brasil, não se pode resumir a uma frase: deixem a Justiça funcionar. 

* Jornalista do periódico português “Público”