Variações em torno de um tema: Marielle

Ocorre muito comumente nos mais diversos países o fato de a ocorrência de algum acontecimento alarmante ser seguido de consternação, comoção, atenção focada em um processo esperado de metabolização de suas consequências. O referido processo vai se desenrolando até o seu desfecho. O tempo decorrido é relativamente curto, dependendo, em parte, da natureza e da intensidade do acontecimento. Logo, logo, ou até quase que concomitantemente, outro acontecimento marcante irá ocorrer, provocando reações similares. 

O primeiro evento já aconteceu, as reações que provocou já foram digeridas. Vamos embora enfrentar o novo evento que se segue. As repercussões na mídia em geral noticiam vigorosas interpretações e reações do que está ocorrendo. E por aí vai! No caso do Brasil e especialmente do nosso amado e sofrido Rio de Janeiro o crime hediondo praticado com o assassinato planejado e executado com maestria profissional com os tiros desfechados contra o nosso símbolo atual Marielle e o motorista Anderson, não tem sofrido o desenrolar costumeiro. O choque foi forte demais, ele teve um sentido profundo, a sua não resolução revolta e torna mais aguda a atenção e o interesse da maioria dos nossos compatriotas. Quem matou Marielle? Quem cometeu essa barbaridade? Quem são os mandantes? O que foi feito ou ainda está sendo feito ou será feito para elucidar e responder essas perguntas? As respostas ainda não foram apresentadas e não há, creio eu, que haja outro assunto que supere o interesse em sua resolução do que este que está sendo focalizado. 

A mídia não se cansa de registrar questões que ouso chamar de “variações em torno de um tema único: Marielle”. Tomando por fonte de informações os dois jornais mais tradicionais que atualmente circulam no Rio, examinemos rapidamente o que vem sendo divulgado, desde a ocorrência deste assassinato brutal. Com o enfoque tão somente nas manifestações mais recentes aqui vão as seguintes questões:

- A cobrança dolorida dos entes queridos de Marielle contra as autoridades que até agora nada elucidaram. 

- O absurdo de Marielle ter sido vítima dupla, isto é, depois de ter sido brutalmente assassinada na quarta-feira, dia 14 de março de 2018, continuou sendo alvo de outros ataques, quando surgiram fake news nas redes sociais com o objetivo de destruir a imagem política de Marielle. Absurdo dos absurdos! Tentar assassinar uma vez mais, atingindo o cadáver de uma provável e poderosa líder post mortem! 

Marielle representava a luta por direitos que são muito combatidos, por exemplo, por igrejas evangélicas, como a causa LGBT e também o debate sobre o aborto.

 - Marielle foi um belo exemplo de superação ao fazer parte de 0,05% de moradores da favela com mestrado. Criada na comunidade, desde o ano passado (2017) a vereadora morava na Tijuca, que possui um dos maiores índices de IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) da cidade e o seu salário era alto, aproximadamente R$ 14 mil líquidos.

 - Segundo um diretor de cinema, “quem matou Marielle estava tentando matar o amor”. Este era o objetivo dos que eliminaram Marielle, punindo-a e nos avisando do que são capazes se insistirmos no mesmo rumo! 

- De acordo com o depoimento de Talíria Petrone, vereadora mais votada nas eleições de Niterói em 2016, também negra e feminista, ela denuncia que “a internet e suas redes sociais foram usadas para dissociar a figura de Marielle do que é e sempre vai ser, das lutas que ela defende! Estão tentando desfazer tudo o que ela sempre foi, a mulher socialista, feminista, negra, favelada, lésbica”. 

- Infelizmente, permanece a pergunta: “Quantos mais vão precisar morrer?”

* Mestre em Educação