Por onde passa a disputa de corações e mentes na América Latina

O assassinato bárbaro de Marielle Franco continua ecoando na minha cabeça e no meu corpo, e isso deverá acontecer por muito tempo. Para seguir adiante, não basta prender os criminosos; é preciso também superar, na atual conjuntura, as forças que geraram essa morte e de tantas outras pessoas, envolvidas ou não na luta pelos direitos fundamentais das populações das periferias e favelas. No que diz respeito aos enfrentamentos nesse momento histórico, a grande novidade na ação dos conservadores é o fato de não mais se apoiarem nos militares para romper com a democracia. A estratégia atual se centra no “golpe constitucional”, usando de forma instrumentalizadora e por motivos fúteis as possibilidades de impedimento presidencial constantes na legislação. Nesse sentido, as corporações dominantes no Poder Judiciário passam a cumprir o papel que os militares já cumpriram. Foi assim em Honduras, Paraguai e Brasil, tendo a estratégia fracassado na Argentina e na Venezuela e servindo para retirar um presidente que não interessava aos conservadores no Peru. Ela continua, portanto, colocada no campo político latino-americano. 

O movimento conservador no âmbito do Estado é fortalecido na sociedade civil por grupos geralmente coordenados por fundamentalistas religiosos e ultraliberais no campo econômico; eles estabelecem uma guerra no campo do comportamento - tendo como foco o controle dos corpos, da liberdade de expressão e artística – a fim de avançarem no processo eleitoral e imprensarem os grupos sociais progressistas que defendem os direitos individuais. No caso do Brasil, as recentes ações de censura no campo das artes e da educação – “Escola sem partido” – são expressões concretas dessas estratégias. Elas objetivam, além disso, tirar o foco da população sobre a questão econômica, em que as oligarquias realizam um conjunto de medidas que tem contribuído para precarizar a vida da maior parte da população, retirar direitos históricos e favorecer o mercado, gerando o aumento da pobreza e da desigualdade.  

Felizmente, esse movimento, embora crescente, tem enfrentado reações. Nesse sentido, a melhor notícia da semana foi a vitória, na Costa Rica, de Carlos Alvarado e de sua vice-presidente, Epsy Campbell – primeira mulher negra a ocupar esse cargo no país. Eles derrotaram, com mais de 60% dos votos, o candidato ultraconservador Fabrício Alvarado, que tinha como principal bandeira de campanha a crítica ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.  

No México, por sua vez, Lopez Obrador, candidato do partido Morena e que já teve uma vitória eleitoral perdida por fraude, está em ótima posição nas pesquisas em uma eleição que não tem dois turnos e acontecerá em julho. As sim, sua possibilidade de vitória é maior do que nunca. O país vive um momento muito parecido com o brasileiro, com a explosão da violência depois do uso das Forças Armadas numa guerra total contra o tráfico de drogas, aumento da desigualdade, níveis extremos de corrupção e crise econômica.  

As eleições brasileiras serão marcadas pelas mesmas tensões e disputas presentes na Costa Rica e no México. Aqui, as forças conservadoras vivem forte crise por falta de um nome competitivo para as eleições e apostam no poder da grande mídia de pressionar o Judiciário para impedir a candidatura de Lula. Os grupos progressistas, por sua vez, até estimulados pelo assassinato de Marielle, estão demonstrando uma rara maturidade e a capacidade de dialogar em busca de construir posições comuns contra a intolerância crescente afirmada pelas forças fascistas. A falta de um nome forte dos conservadores pode gerar uma onda em direção a um aventureiro de extrema-direita como Bolsonaro e levá-lo ao segundo turno. Isso seria um desastre para as forças conservadoras, que se veriam na perspectiva de apoiar o provável candidato de centro-esquerda, que deverá ir para o segundo turno ou embarcar no abismo político representado pelo ex-militar. 

O jogo está rolando e não podemos deixar de nos colocar diante dele, buscar nele atuar e fortalecer a necessária luta para radicalizar a democracia brasileira e latino-americana. Isso é o que se espera de nós, da sociedade civil, para que a morte de Marielle não seja esquecida e nos alimente na caminhada.

* Fundador do Observatório de Favelas e diretor geral do Instituto Maria e João Aleixo