Capital da água: várias vozes e uma só urgência

Enquanto o indiano Maulik Sisodia denunciava o perigo de empresas privadas assumirem a gestão de recursos hídricos de seu país, a brasiliense motorista de Uber Rossiane Lima questionava se as autoridades não deveriam instalar caixas para captar águas da chuva na capital do país. Ao mesmo tempo em que a diretora de fundos de água da Nature Conservancy, na África do Sul, Louise Stafford, alertava que a escassez hídrica ainda tem desdobramentos imprevisíveis, a arquiteta Taís Luz, moradora de Salvador, refletia se o amanhã do planeta não seria, de certa forma, uma volta ao passado, ao respeito à natureza e à preservação das águas. De 18 a 23 de março, Brasília reverberou vozes de diferentes matizes ideológicas, ONGs, empresas, ativistas, governos. A urgência de que é preciso pisar no acelerador para garantir acesso hídrico e saneamento à população uniu os dois encontros que pareciam tão divorciados quanto água e óleo: o Fórum Mundial da Água (WWF, na sigla em inglês) e o Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama).

 O horizonte não surge animador. O mundo tem 2,1 bilhões de pessoas sem acesso a água potável. A falta d´água afeta 3,6 bilhões de pessoas no planeta pelo menos um mês por ano – e a previsão dos especialistas é que esse problema possa atingir 5,7 bilhões até 2050. Quase 240 milhões de pessoas têm esquistossomose – doença aguda e crônica – causada por vermes parasitas contraídos por água contaminada. Os avanços, conforme mostrou relatório do Programa Mundial de Avaliação dos Recursos Hídricos da Unesco, são bastante tímidos. De 2000 a 2015, a população global servida por sistemas básicos de saneamento avançou de 59% a 68%. Em uma das muitas sessões concorridas do Fórum Mundial da Água, o diretor da Unesco Stefan Uhlenbrook cobrou mais celeridade nas aplicações de recursos para garantir o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 6 da ONU, até 2030: a universalização do acesso a água e esgotamento sanitário. “O mundo não está no caminho certo. É preciso triplicar os investimentos”. Num outro debate, Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água, defendeu nova governança: “Precisamos de métodos de financiamento efetivos e eficazes para garantir a segurança hídrica nas Américas. Ou continuaremos a ter projetos que começam, mas nunca terminam”. 

Quase todo mundo do Fórum Alternativo concordou que as coisas vão de mal a pior. Mas a turma do Fama, evento organizado por movimentos sociais, mirou suas armas para as “grandes corporações”. Na quinta-feira, dia 22, a calçada em frente ao Centro de Convenções Ulysses Guimarães, que reuniu os encontros do fórum principal, foi pichada: “Fora, Nestlé”, “Fora, Coca-Cola”. O movimento fez coro contra a privatização e pela democratização do acesso a água. “Para nós, água é um direito, um bem comum e não uma mercadoria, uma commodity”, resumiu o ambientalista Thiago Ávila. Em outra frente, ativistas da SOS Mata Atlântica instalaram um enorme vaso sanitário em frente ao Congresso. 

Castigada pela seca que faz faltar água nas torneiras, Brasília ecoou um grito pela preservação desse bem tão precioso, fundamental, renovável, mas tragicamente finito. O aviso da primeira-ministra da Índia, Indira Gandhi, há 46 anos, nunca foi tão atual: “O pior tipo de poluição é a pobreza, a falta de condições mínimas de alimentação, saneamento e educação”. A garantia da qualidade dos recursos hídricos é fundamental num novo modelo de desenvolvimento global. Todos os alertas já foram dados. É preciso agir. 

*Jornalista, mestre em Engenharia Ambiental e editor de conteúdo do Museu do Amanhã