Sempre aos domingos - Notícias falsas, verdadeiras e manipuladas 

Um dos episódios mais escabrosos a revelar um lado torpe das redes sociais (e eles não são poucos) está no escândalo da consultoria política britânica Cambridge Analytica, que com aplicativos no estilo “veja como ficaria se você fosse do sexo oposto”, roubou dados pessoas de 50 milhões de usuários do Facebook e escancarou a fragilidade da rede em relação à privacidade de seus usuários. O jornal “The Guardian” deu o furo há oito dias, mas as entrevistas exibidas pelo Channel 4 News foram ainda mais espantosas, ao revelarem  a desfaçatez dos executivos da empresa ao contar, não sem um tom de indisfarçável soberba, a forma como eles “ludibriavam” os internauta para “ceder” seus dados no Facebook e, mais tarde, montar notícias falsas encomendadas por poderosos em eleições (nos EUA) e referendos (no Reino Unido) e cirurgicamente espalhadas entre um público que seria influenciável por essas “fake News”. O mais assustador: os caras anunciavam que estavam vindo para “as eleições no Brasil em outubro”. 

Mark Zuckerberg veio a público depois de dias de silêncio para pedir desculpas e prometer mais segurança, incluindo para as eleições brasileiras, mas o mesmo “Guardian” lembrou que, em 2004, quando o rapaz de 19 anos fundava a rede, ele mandou aos amigos de Harvard mensagens em que afirmava, a respeito dos 4 mil então usuários: “As pessoas simplesmente cederam-nas (as suas informações pessoais)... Eu não sei porque... Elas “confiam em mim”... otárias”.  Hoje o Facebook tem 2 bilhões de usuários e Zuckerberg tratou de dizer que era imaturo e não sabia do que estava falando. Campanhas pedindo que as pessoas deletem suas contas na rede social não tardaram, algumas tolamente mandando o povo migrar para o Instagram (cujo dono é o Facebook), mas o fato é que ecossistema da rede social é muito maior, inclusive financeiramente, que o desejo de alguns militantes.

Tudo isso acendeu a luz amarela (ou pelos deveria ter acendido) para qualquer um remotamente ligado ao processo eleitoral brasileiro. Num cenário já instável e polarizado, o show das notícias falsas já deu o tom na campanha de 2014. Tudo indica que será pior este ano. O TSE está pronto? O governo está pronto? A Abin está pronta? Os comitês de campanhas dos candidatos estão prontos? Empresas de checagem de fatos já trabalham de forma permanente no Brasil – como a Agência Lupa, Aos Fatos ou Truco -, mas se o país quer que as notícias verdadeiras se sobreponham às falas, o esforço precisa ser ampliado. Porque quem espalha notícias falsas vai desde pessoas esclarecidas, mas ingênuas, a gente que ignora as nuances da política e dos fatos, passando por alienados de carteirinha e mal intencionados de forma geral. É preciso uma fórmula que misture esclarecimento com fiscalização e punição. 

Por fim, há que se prestar atenção também a um tipo de notícia muito comum, mas que se esconde sob o manto do “Jornalismo verdadeiro”: as notícias manipuladas que possuem ares de notícias verdadeiras (porque feitas dentro do ambiente do jornalismo profissional, usando suas técnicas), mas são claramente manipuladas para induzir os leitores a acreditar que aquela história é um fato, quando na verdade é uma opinião ou uma bandeira. Não com o objetivo de alcançar a verdade, mas de convencer alguém sobre um ponto de vista (nem sempre do interesse do país e frequentemente no interesse do status quo). Há dezenas de jornais ditos isentos que praticam isso todos os dias e ai de quem aponte o dedo acusando a manipulação. 

Mas se há uma só coisa que as redes sociais fizeram de positivo ao longo da última década foi exatamente multiplicar os pontos de vista sobre determinados assuntos, dar voz a quem não tinha e desmascarar as manipulações. Zuckerberg, deixe a ganância e a estupidez de lado e não bote tudo a perder.