O amor nos tempos de Juliette

Nem o espaço sideral será limite para a vontade de potência que Juliette Binoche tem quando o assunto é filmar: uma das mais prolíficas atrizes da Franças, dona de uma média de três longas-metragens lançados por ano, ela é um dos destaques da aventura estelar “High life”, de sua conterrânea Claire Denis. A respeitada diretora de “Bastardos” (2013) e “Minha terra, África” (2009) sacudiu a ala autoral da indústria cinematográfica da França ao anunciar que faria uma ficção científica com Binoche ao lado do vampiro Robert Pattinson (de “A saga crepúsculo”). Ambos desbravam a solidão do cosmo.

Mas o que levou a atriz ao projeto – e às estrelas – foi uma parceria anterior com Claire: elas trabalharam numa comédia romântica mediada pelos “Fragmentos do discurso amoroso”, de Roland Barthes, chamada “Deixe a luz do sol entrar (Un beau soleil intérieur)”. Lançada na Quinzena dos Realizadores de Cannes, em maio de 2017, esta produção decalcada da prosa de Barthes estreia nesta quinta no Brasil, cercada de elogios na Europa e indicações a prêmios. Centrado numa ciranda de desventuras amorosas de uma mulher recém-separada, o longa-metragem rendeu a Juliette uma indicação ao César, o Oscar francófono. 

“Atuar é saber se adaptar a mundos distintos, captando e traduzindo espíritos críticos ou poéticos sobre a vida. A poesia de Claire passa pela sinceridade”, disse Juliette ao “Jornal do Brasil” na estreia francesa do longa, que foi definido pelos críticos do Velho Mundo como “um filme de Woody Allen com rizomas”. 

Respeitada internacionalmente por cults, como “Desejo e obsessão” (2001) e “35 doses de rum” (2008), Claire define o arranjo narrativo de “Deixe a luz do sol entrar” de modo mais simples. “É uma valsa de paixões”, diz a diretora, que narra, com tintas agridoces, as peripécias amorosas de Isabelle (papel de Binoche), uma artista parisiense atrás do amor verdadeiro ao fim de um casamento infeliz. Uma série de encontros e desencontros emotivos vai dar um tônus de derrota em sua procura pelo querer, envolvendo diferentes homens vividos por atores como Xavier Beauvois e Alex Descas.

“Gosto de classificar este corpo a corpo com Barthes de tragicomédia, pois todo mundo que busca um amor está sujeito a altos e baixos... a perdas. Mas ele ganha forma graças ao humor de Juliette”, disse Claire, que finaliza “High life” de olho numa vaga no Festival de Cannes, que este ano vai de 8 a 19 de maio. “Construí a narrativa pensando nos clássicos da comédia italiana do passado: comédias tristes, atentas à ressaca moral”.   

 Amanhã, às 20h30, no Reserva Cultural, em Niterói, o jornalista Marcelo Müller, da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), faz um debate sobre a estética de Claire e sobre o talento de La Binoche. “Existe uma vocação combativa do cinema que me cativa, mas é bom passar por filmes que usam a leveza para flagrar as angústias que passam pelos nossos sentimentos”, falou Juliette, em Cannes. “Representar não é reproduzir. Representar é criar uma conexão com o que há de mais sincero nas suas experiências sensíveis”. 

Muitas confusões marcam a busca afetiva de Isabelle no filme de Claire, entre elas a consulta a um vidente com um quê de charlatão vivido por um ícone da França nas telas: Gérard Depardieu. A participação dele, classificada como “arrebatadora” na passagem de “Deixe a luz do sol entrar” por Cannes, arranca gargalhadas. 

“Claire consegue salvar nosso cinema de um equívoco: a comédia na França hoje se aproximou muito da estética televisiva, ficando muito dependente da palavra. Ela abriu mão das sutilezas, em filmes quase sempre dirigidos por cineastas jovens, sem o entendimento de uma certa tradição do humor europeu, que extraía o riso não de piadas prontas, mas de críticas sociais e de retratos de situações cotidianas”, diz Depardieu ao “Jornal do Brasil”: “Gosto muito de trabalhar com jovens diretores e curtir o frescor de novas formas de olhar o mundo. Mas é delicioso poder trocar experiência com alguém com a maturidade de Claire para falar sobre prazeres simples. A vida é feita deles”.   

Serviço

ACCJR debate “Deixe a luz do sol entrar” Reserva Cultural (Av. Visconde do Rio Branco, 880 São Domingos, Niterói. Tel.: 3811-8537) Segunda, dia 26, às 20h30 Valor do ingresso: R$ 31 / R$ 15,5

* Rodrigo Fonseca é Roteirista e Presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)