O protecionismo de Trump

“A América vai ser grande outra vez” ou “Vamos devolver os empregos aos americanos”. Em suas arengas eleitoreiras, Trump prometia impor uma tarifa de 35% sobre produtos chineses, além de promover a volta das empresas americanas (des)localizadas no México. Até agora, o presidente americano sapecou 25% no aço e 10% no alumínio, além de ameaçar com tarifas destinadas aos automóveis europeus. 

“Morte por China. Esse é o risco real que todos nós enfrentamos enquanto a nação mais populosa e a caminho de se tornar a maior economia do mundo está rapidamente se tornando no mais eficiente assassino do planeta”. É nesse tom que Peter Navarro, professor de economia e política pública na Universidade da Califórnia, recentemente nomeado diretor do National Trade Council por Donald Trump, inaugura o primeiro capítulo do seu livro Death by China. 

Para o novo tutor do comércio americano, as campeãs nacionais chinesas apoiadas pelo estado, com a potente combinação de mercantilismo e protecionismo, configuram armas de destruição de empregos americanos. 

Suas posições registram a inviabilidade da visão encantada do livre comércio, como um grande amigo secreto entre nações, onde cada um leva o que produz de melhor. 

Navarro desanca a teoria das vantagens comparativas: “se você deseja descobrir o que não é o livre comércio, tente ler qualquer um dos livros-texto de economias que nossas crianças estudam nas faculdades hoje em dia. Seus olhos vão rolar, sua cabeça vai girar, e seu estômago irá torcer pelo divórcio desses textos com a realidade da arena do comércio global. É como se Gandhi tivesse substituído Clausewitz e Sun Tzu em cursos de estratégias militares... apesar da abundância de evidências contrárias, esses livros-texto, continuam a ensinar as virtudes do livre comércio e dos assim chamados ‘ganhos do comércio que todos nós deveríamos nos beneficiar’. 

Ele inculpa “oito práticas comerciais injustas” chinesas pela queda na participação da manufatura no produto doméstico de 25% para 10%, cabendo protagonismo para a taxa de câmbio “espertamente manipulada”, que equivale a uma tarifa uniforme de importação e um subsídio à exportação. “Se o dinheiro é a raiz de todo mal, então a manipulação chinesa da sua moeda, o yuan, é a raiz central de tudo de errado na relação comercial entre Estados Unidos e China”. 

As palavras do Conselheiro de Comércio Exterior do governo americano reiteram a longa tradição protecionista dos   Estados Unidos. Sugiro uma olhadela nas tarifas americanas que vigoraram ao longo do século XIX, sobretudo depois da Guerra Civil. O economista Bradford Delong em seu livro Concrete Economics, demonstra que entre 1860 e 1879, no apogeu do prestígio do livre-comércio, os Estados Unido teimavam em permanecer como o país mais protecionista do mundo.  

No susto da Grande Depressão dos anos 30 do século passado, a boca torta revelou o uso do cachimbo protecionista: a lei americana Smoot-Hawley elevou brutalmente as tarifas. Em seguida, a Inglaterra abandonou o padrão-ouro em 1931, os Estados Unidos caem fora em 1993. 

As tarifas e as desvalorizações competitivas produziram uma brutal contração do comércio internacional. A deflação de preços das commodities e produtos industrializados comprovou o óbvio: se todos tentam desvalorizar, ninguém consegue, ainda que alguns consigam mais que os outros. 

Na ausência de uma coordenação global, a tentativa (racional) de defender o mercado doméstico dos efeitos da queda do volume de comércio culmina no prejuízo geral e irrestrito. Em sua essência, as reações protecionistas são antes de tudo políticas, no sentido de que respondem às pressões internas nascidas do desemprego e da queda dos rendimentos das famílias. É fácil pedir grandeza de espírito e generosidade a Trump Difícil é combinar com os americanos desempregados.

*Economista da Unicamp