Pilar Del Río na Fliporto

Nunca é tarde para escrever. Nunca é tarde para amar. O filme de Miguel Gonçalves Mendes sobre José Saramago e Pilar Del Río é uma comovente história de amor que demonstra isso e pode ser sintetizada na dedicatória do livro de Saramago “Caim”: “Para Pilar, como se diz água”. 

Pilar Del Río abrirá a Festa Literária Internacional de Pernambuco – Fliporto, no próximo dia 14 de novembro de 2013, falando sobre Saramago e, certamente, será um momento de muita emoção. Recentemente, ela anunciou o lançamento de um inédito de Saramago para o final do ano: “Alabardas, alabardas! Espingardas, espingardas!".

Conheci Saramago na minha adolescência, durante o segundo governo do meu avô Miguel Arraes. Em 1987, o escritor era um dos integrantes da comitiva do presidente de Portugal na época, Mário Soares, que visitou Pernambuco. Na ocasião, lembro-me que meu pai, o escritor Maximiano Campos, conversou longamente com Saramago e que Arraes foi presenteado por Mário Soares com um exemplar de uma litografia do pintor português Julio Pomar, com a imagem de Fernando Pessoa. Litogravura que também foi dada a José Saramago, que a expunha em sua casa, sendo uma das fotos suas mais conhecidas a que tem ela como fundo. Hoje, guardo carinhosamente o quadro que herdei do meu avô, lembrando dele, de Fernando Pessoa, de Saramago e de nossa ancestralidade ibérica.

Tive a oportunidade, em 2008, de ver no Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista, a exposição José Saramago: a consistência dos sonhos. A mostra, que também foi exibida em países como Espanha e Portugal, reuniu cerca de 500 documentos originais do escritor, apresentados através de recursos digitais e audiovisuais. Organizada pelo diretor da Fundação César Manrique, Fernando Gómez Aguilera, o evento contou com obras inéditas, traduções, manuscritos, notas, primeiras edições, fotografias pessoais e vídeos. Foi uma forma de comemorar os 85 anos bem vividos de Saramago, à época. Uma bela exposição. 

Quando estive em Lisboa, voltando da Grécia, em março desse ano, fiz questão de ir na Fundação José Saramago para ver mais um pouco  da obra e da vida desse grande autor.

O vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998 ficou conhecido pela originalidade de obras como "Memorial do convento", "O evangelho segundo Jesus Cristo” e "O ano da morte de Ricardo Reis", que levaria a jornalista e tradutora espanhola Pilar del Rio, a se interessar pela obra de Saramago. Mais precisamente a partir da leitura do romance traduzido para espanhol “La muerte de Ricardo Reis”. A jornalista afirmou que, ao terminar de ler esse livro se sentiu bastante emocionada e “chorou compulsivamente”. Foi então que ela resolveu procurar o escritor para agradecer o livro e a emoção que sentira ao lê-lo. Nasceu assim uma relação de amizade, que, aos poucos, deu lugar ao casamento construído com a mais intensa cumplicidade. Viveram juntos uma grande história de amor. Ouso dizer que Saramago ao viver o amor maduro com Pilar Del Rio, esse amor que se chama de outono, tendo-a conhecido aos 64 anos, de certa forma, conheceu a grande energia interior de Deus, embora o negasse sempre. 

A consistência de seus sonhos por um mundo mais livre e justo permanecerá, através da força e beleza de suas palavras e o amor por Pilar: ”Olho de cima da ribanceira a corrente que mal se move, a água quase estagnada, e absurdamente imagino que tudo voltaria a ser o que foi se nela pudesse voltar a mergulhar a minha nudez da infância, se pudesse retomar nas mãos o que tenho hoje  longa e úmida vara ou os sonoros remos de antanho, impelir, sobre a lisa pele da água, o barco rústico que conduziu até as fronteiras do sonho um certo ser que flui e deixei encalhado algures no tempo.”

Antônio Campos - Advogado, Escritor, Editor, Membro da Academia Pernambucana de Letras e Curador da Fliporto. [email protected]