A mudança vem das ruas

O povo quer mudança, mas na revolução de meios da internet ou nos protestos de rua faz-se necessário uma clareza de fins. 

A democratização verdadeira do Brasil vai surgir de uma sociedade mais conectada e participativa, mas que tenha uma pauta clara para o Brasil. É imperativa uma reforma política. A vontade das ruas não é representada pela maioria da classe política. 

E ela está começando... as redes, os computadores, os protestos de rua... quem diria? A mutação da pós-modernidade é a contribuição milionária de vários desejos. Mudaram os suportes, novas formas se multiplicam criando novas significações. 

No ato de protesto certamente dorme o desejo de um sentido. Espero que ele seja o de reivindicar uma agenda de mudanças estruturais no Brasil. E deveríamos começar por uma verdadeira reforma política.

Abismo ou metamorfose. Os dois caminhos para encarar o contemporâneo. “Quando um sistema é incapaz de tratar seus problemas vitais, ou ela se degrada, se desintegra, ou se revela capaz de suscitar um metasistema apto a tratar de seus problemas: ele se metamorfoseia”. Diz o filósofo e pensador francês, Edgar Morin, no seu recente livro A Via.

Vivemos em um mundo de inúmeras crises. Conflitos religiosos, políticos e étnicos que podem desencadear guerras de civilizações. Crises econômicas. Degradação da natureza. Excesso de tecnologia e de informação. As sociedades tradicionais estão em derrocada e mesmo à modernidade. Já estamos na pós-modernidade. 

Em seu ensaio sobre o contemporâneo, Morin reúne o disperso e sistematiza um pensamento sobre o futuro da humanidade. Ele traça, em seu livro, uma via para a reestruturação do pensamento e práticas coletivas em nossa sociedade, através do conceito da metamorfose (processo simultâneo de autodestruição e autoreconstrução em uma organização em que a identidade é mantida e transformada em alteridade), que seria uma nova origem. E diz o francês: “Sinto-me conectado ao patrimônio planetário, animado pela religião do que religa, pela rejeição daquilo que rejeita, por uma solidariedade infinita...”. 

Não se resignar. Eis o caminho inicial da mudança e a esperança será ressuscitada no coração da atual desesperança e não será mais sinônimo de ilusão. O poeta espanhol Antonio Machado nos ensina: “Caminhante não há caminho, o caminho se faz ao andar”. A salvação da humanidade pela metamorfose é a via que o sentimento de esperança nos ajudará a trilhar. “Onde mora o perigo é lá que também cresce o que salva”, já dizia Hölderlin. E a mudança começa nas ruas e pela contribuição milionária de diversos desejos pela internet.

Antônio Campos - advogado, conselheiro Federal da OAB, editor, escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras e curador da Fliporto. [email protected]