Amor, o maior dos dons

Nada de humano me é estranho, mas também nunca devemos aceitar por inteiro o alheio — eis a regra do Rei, no dizer de Guimarães Rosa. Três sentimentos tenho de grande significado na vida: o amor, a fé e a esperança. Então, pediram-me para falar sobre o amor. Talvez o amor seja um tema muito batido, mas, por isso mesmo, renovável. 

Assim, peço a paciência e a atenção de vocês, caros amigos e leitores, para falar mais um pouco sobre o grande tema da vida, que, a meu ver, é o amor. "Toda a vida do homem sobre a face da terra se resume a buscar o amor. Não importa se ele finge correr atrás de sabedoria, de dinheiro ou de poder", afirma Paulo Coelho. 

As guerras — inclusive as que já existem e as que se avizinham —, a fome, a violência, o terrorismo, a intolerância, são diferentes sinônimos ou diferentes faces da palavra desamor no mundo. 

Todos os grandes iluminados da História estavam ligados a ações vinculadas ao amor, como Jesus Cristo, Buda, Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, Gandhi, entre outros.

A definição clássica de amor é muito associada a sentimento, mas ele significa também respeitar o próximo, procurar o melhor de cada pessoa.

O jurista italiano Francesco Carnelutti já dizia que o Direito é um triste substitutivo do amor. Quando o amor e a compreensão cessam, nasce o Direito para dirimir os conflitos entre os homens.

O psicanalista Erich Fromm, no seu livro A Arte de Amar, afirma que o amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana. Carlos Drummond de Andrade, que é autor de Amor pois que é a Palavra Essencial e Amar se Aprende Amando, diz: amor, a descoberta de sentido no absurdo de existir.

Amo, logo existo, diz o poeta argentino Horácio Ferrer.

Khalil Gibran, em sua obra O Profeta, disse que o trabalho é o amor feito visível.

Na Medicina, Patch Adams, no filme O Amor é Contagioso, ensina-nos que o grande remédio é o amor.

Amadeus Mozart, o genial compositor austríaco, diz-nos: nem uma inteligência inusitada ou grande imaginação nem ambas juntas fazem um gênio. Amor, amor, amor é a alma do gênio. Eça de Queiroz disse que a missão da arte é ensinar a amar.

A primeira carta de São Paulo aos Coríntios, cap. 13, na Bíblia, intitulada O Amor é o Dom Supremo, apregoa-nos que ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor [...] nada serei. Henry Drummond, em seu Dom Supremo, que é uma releitura dessa carta de São Paulo, diz-nos com grande sabedoria que o amor é a regra-síntese. A regra que resume todas as outras regras e mesmo as doutrinas. E diz mais: quem nunca amou é porque o espírito de Deus nunca nele habitou.

Jesus Cristo sintetiza o seu pensamento neste mandamento: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei.

O veio central das escrituras é o amor. Na realidade, o cristianismo é um grande espetáculo do amor. E aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.

Uma vez, alguém me disse que o amor não existia. De pronto respondi que, se ele não existisse, nós o criaríamos e, com o sopro de nossa criação, ele teria vida e forma.

E o amor entre um homem e uma mulher? Isabel Allende, no início do seu livro De Amor e de Sombra, conta a história de um homem e uma mulher que resolveram amar-se plenamente e libertar-se da vida vulgar. E eles — diz ela — contaram-lhe a sua história para que ela a testemunhasse e para que o vento não a levasse.

Gabriel García Márquez, o Gabo, em O Amor nos Tempos do Cólera e nas Memórias de Minhas Putas Tristes, mostra que o amor não tem idade e pode explodir/acontecer na maturidade. Neste último, encontra-se a seguinte frase: o sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.

O amor é a possibilidade da revolução a dois. Se você tiver amor, você não morrerá de sede no mar da vida.

Marco Antonio e Cleópatra imortalizaram o seu amor na Antiguidade. Tristão e Isolda tiveram um lendário amor na Idade Média.  Romeu e Julieta se amaram até a morte. León e Sônia Tolstói; Evita e Juan Perón; Sissi e o Imperador Francisco José; Giuseppe e Anita Garibaldi são também exemplos amorosos. O amor revolucionário de Sartre e Simone de Beauvoir. John Lennon e Yoko Ono viveram interessante interdependência alguns anos atrás.

Miguel de Unamuno, no entanto, adverte: O amor, leitores e irmãos meus, é o que há de mais trágico no mundo e na vida; o amor é filho do engano e pai do desengano; o amor é consolo no desconsolo, é a única medicina contra a morte, sendo, como é, irmão dela. [...] O amor busca com fúria, através do amado, algo que está além deste e, como não acha, desespera.

O filme 2046 – Segredos do Amor, do cineasta chinês Wong Kar Wai, retrato da parcialidade do erotismo contemporâneo, tenta passar a mensagem do fim da plenitude, da inteireza. Para ele, o verdadeiro amor é impossível. Assim, só o amor impossível é o verdadeiro amor, ou melhor, só o parcial existe e nos excita. 

A incompletude é a única possibilidade humana. Contudo, em que pese o brilhantismo dessa visão do cineasta de Hong Kong, a própria história e a grande arte negam essa impossibilidade.

Tudo o que sei sobre o amor é que ele é tudo. William Shakespeare, o grande poeta e dramaturgo inglês, já dizia que: “o amor é tudo. O resto é abismo”. 

Só o amor vence a morte. É o amor, e não a vida, o contrário da morte (Cléo e Daniel, Roberto Freire). Só o amor tem a chave da vida para desvendar o grande mistério da existência humana. Os que trilharam verdadeiramente esse caminho atingiram a iluminação.

Isso tudo pode parecer óbvio, mas é difícil de aceitar e aplicar em nossas vidas.

Neste início de um novo ano, marcado pela insanidade da guerra e pelas incertezas de uma grave crise econômica e também de valores, insistimos em renovar as nossas esperanças de que o homem, finalmente, descubra a força transformadora do amor, através de ações solidárias para com os seus irmãos. Afinal, quando formos julgados o seremos pelas ações para com nossos semelhantes.

Deus permitiu que eu visse, à minha maneira, que o grande tema da vida é o amor. É possível que, desde então, o meu entendimento sobre a vida, no lugar de ficar resolvido, tenha-se tornado um mistério, mas o meu espírito, finalmente, logrou ficar mais próximo da paz.

Antônio Campos - advogado, editor, escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras e curador da Fliporto - [email protected]