Ouvindo o “trenzinho caipira” de Heitor Villa-Lobos, na voz de Maria Bethânia

O guarda da estação dá o último apito de saída. E haja o suporte do limpa-trilhos a limpar. E haja limpa-trilhos a limpar e trilhar. E haja rodas-guia a guiar.  E haja lubrificante do chassi a lubrificar. E haja balança de equilíbrio de truques a equilibrar. E haja manga de eixo a balançar. Eu vejo a alavanca de equilíbrio das rodas a equilibrar e sinto o feixe de molas a sustentar. Agora, sim: chegou a vez das rodas de tração a funcionar.  E ouço as rodas do trem lentamente a rodar.

Bastou abrir a janelinha para ver o passageiro lento no seu caminhar,  todos disseram: ele perdeu a hora da partida! A cena me faz lembrar um verso de Cora Coralina: O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.  E me surpreendo,  vendo numa Lisboa distante, no Mosteiro de São Bento, imagem remota passando rapidamente pela janela mágica desse trem, o lema da Escola de Sagres: NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO. Da janela desse trenzinho de Interior, (olha o trem em movimento!!!) dava para ver a noiva triste da Estação, beijando com o seu olhar saudoso e com gestos de mãos o noivo que se vai. Lencinho branco acenando como num poema parnasiano, embora seu choro seja barroco. Tantos beijos, tantos beijos no seu anel de noivado.  E vejo o guarda da estação dizer à triste moça: tenha cuidado, minha doce senhora, saia da plataforma!!! O trem já está em andamento, não chore em vão, seu noivo nunca mais vai voltar. E não torne ainda mais triste o passar de vagões por esta estação.  Isso aqui parece uma saudade feita de ferro sobre os trilhos do sem fim, e olhe como vem à lembrança o poeta do desassossego!!!.  (A sapata de freio, a roda de arrasto e a cruzeta do trem estarão afinadas com o condutor?)

E vejo uma jovem mulher à espera do amante que também não voltará jamais. (Como são flamejantes o seu olhar!). Nem por uma sorte inesperada do Destino ele voltará. Nem pela força dos Ventos Íngremes da Natureza, nem pelas rezas dos anciãos do lugar, nem pelos feitiços das feiticeiras das encostas  e matas da cidadezinha. Onde mais ele poderia estar?

E vejo a esfinge de outra mulher, filho novinho ao colo à espera do pai (outro que também nunca mais chegará). E vejo uma velha devota à espera do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Tríade Superior, como exclamaria nesse instante um velho iniciado nas hostes de Plutarco. (Chegou a hora de testar a caldeira,  a fornalha e a válvula de segurança).  E vejo o cego, confiante no seu cão-guia, querendo entrar no trem,  mas como!!! – se a máquina de ferro já está em movimento?  O animal com seus gestos humanitários me parece estar perdendo (pela velhice) as faculdades de guia de cego. Esse quadro parece deixar todos passageiros comovidos. O que será desse homem sem os olhos do seu cão? Uma cena para ser pintada por um Cícero Dias, ainda mais legendada por um Mauro Mota,  mas eles pegaram outro trem.

E vejo um jovem mascate com roupa de tons cáqui e gorro pardo na cabeça, a vender apressadamente umas broas caseiras de goma, porque o maquinista não espera. “Olha broa de goma, olha água fresquinha de beber, tirada da cisterna!!!”  Mas o que está na verdade no seu tabuleiro (o menino de coração nobre e suas astúcias!)  não são broas de goma, são um amontoado de cantigas de ninar escritas em papel, aquelas  que desapareceram para sempre. (Tinha de tudo no tabuleiro do menino, menos aquela cantiga do Boi da Cara Preta. Ou seja, você já reparou que as cantigas de ninar soam mais como uma ameaça do que algo relaxante? Na verdade, as cantigas de ninar não foram feitas para ensinar ou para dar medo, já que o seu filho não vai se lembrar de nada, ou entender o que você quer dizer. As cantigas foram feitas apenas para embalar a criança até que ela durma profundamente e se aquiete quando você começar a cantar).

E vejo uma mulher vestida de branco e lenço rubro na cabeça, estranhamente a sair do vagão com a pressa dos ansiosos, e nele  deixando os seus mínimos pertences, até a sua pequena caixa de retoques, como se, longe da plataforma, fosse rever o que na Estação jamais encontraria. (As rodas do trem parecem ainda mais aceleradas, agora não vejo, apenas sinto: o tempo possui apenas uma realidade: a do instante, que dura menos que um raio solto no infinito escuro. Mas há um tempo que não passa jamais, o da cerimônia do ADEUS). “Ó estações, ó castelos!/Quando tu partires, enfim/Nada restará de mim./Ó estações, ó castelos!” – Ó Jean Nicholas Arthur Rimbaud!!!

E vejo agora, cruzando os trilhos da estação, não sei se saindo ou chegando, uma bela mulher de cabelos negros, um rosto de beleza singular, como aqueles raros semblantes que eternizam o momento único das nossas vidas. (Parecia saída de um conto de fadas. O vento lhe despiu os membros, as brisas agitaram-lhe as vestes e os cabelos). Ainda bem que o maquinista, que sabe tanto de fagulhas soltas no ar, conduz a grande máquina em velocidade escalar. E o foguista deixa por instantes de colocar lenha na imensa caldeira, não mais alimentando as engrenagens de ferros e quimeras. 

E vejo perto de mim a doce Maria Bethânia, filha de Dona Canô, que recentemente nos deixou fisicamente, a louvar  o trem que nunca vi, porque ele passou depressa na minha estação imaginária (como o trem da vida), levando um menino e no coração dele um sonho impossível de ilustrá-lo nesta hora também imaginária, tamanho os seus sortilégios. (Alguma feiticeira nesse instante teria largado o seu feitiço sobre o vigia solitário da Estação, que adormece profundamente, sem que consigam acordá-lo. O que, por favor, significa isso nas metáforas aqui alongadas? Ainda não sei por que o homem perto de mim, neste vagão cheio de tantos mistérios, lê - indiferente a tudo - o seu jornal, tudo indica de outros dias imprecisos; e porque outro viajante desse trem não consegue até agora acender com o fogo do isqueiro a ponta   do cigarro).

E vejo o homem fardado às três horas da tarde, andando no meio dos vagões com a lanterna acesa. E vejo o ponteiro mestre sinalizador do relógio da estação parar exatamente às 3 horas da tarde. E sinto como num sopro inesperado da memória, a lembrança do poeta de Andaluzia, porque foi,  nesta, a hora da sua covarde execução pelas costas, naquele fatídico momento em que o sol de Andaluzia chegara no auge da sua vigorosa ascensão Sem julgamento, como foram executados no meu país, tantos jovens, tantos sonhadores como ele por uma Nação mais digna e justa para os seus filhos.

E vejo um menino, sozinho, na Estação, (o trem a vapor ainda no seu lento caminhar), a olhar para mim com aqueles olhos inquietos que jamais hei de esquecer. Parecia mais o olhar daquele menino soldado, ainda tão criança, das forças armadas de um certo império negro africano. Não saberia dizer com precisão em que ciclo de encarnação o havia visto tantas vezes, ou apenas num sonho ou numa vigília. Como é lindo! (Nesse instante, os gatos plantonistas da Estação, todos de cor preta, fizeram um circulo ao redor do menino – acho que mais de 20 gatos – todos miando numa sonoridade que jamais vi entre os bichinhos de sua espécie.)

Vejo o trem, quase chegando na curva nebulosa do túnel,  onde tudo aparentemente ficara para trás, a densa nuvem de vapor negro e a fuligem expedida por chaminé, a estação e a cenografia aqui retratadas, até o foguista que estava embriagado, o chefe com o seu boné sobre o peito, o sinaleiro com a sua bandeira não mais para quê,  e a hélice do relógio do tempo parada de forma inesperada como um raio. Nesse instante, um desses avatares que os deuses preferem mantê-los ocultos, deu uma rajada de ventos que, de tão forte, o trem mal fazia sair do lugar, tamanho o seu balançar. Parecia uma galé quando o vento sopra no cais.

Bem sei que essa cenografia toda, qual filme chapliniano de cinema mudo (feito todo em câmera lenta, com perfuração de bitola à antiga) tudo não durou mais de um minuto, tempo para dar consistência de avanço à locomotiva. E vem de repente à memória umas reflexões de Henri Bergson que li (era ainda muito jovem, na casa de meu pai): no  DURAÇÃO E SIMULTANEIDADE.  “(...) Caso se trata de um trem movendo-se na via férrea, aceita-se falar de reciprocidade enquanto o movimento permanecer uniforme: a translação, dizem, pode ser atribuída indiferentemente à via  ou ao trem; tudo o que o físico imóvel sobre a via afirmar  acerca do trem em movimento poderia ser igualmente firmado acerca da via, que passa a ser móvel, pelo físico que passou a ser  interior ao trem.  Mas basta a velocidade do trem aumentar ou diminuir, bruscamente, basta o trem parar: o físico interior ao trem  sente uma sacudida, e a sacudida não tem uma duplicata na ferrovia. Portanto, não mais reciprocidade quanto à aceleração: ela se manifestaria por fenômenos dentre os quais ao menos alguns diriam respeito a apenas um dos dois sistemas”.

Vejo a chegada repentina de um vendedor de pequenos espelhos. Mas não são espelhos o que ele traz na sacola, são molduras vazias de minúsculos espelhos. Uns com olhos de serpentes gravados, outros sob a forma de espadas.  E vejo o estranho vendedor a dizer aos seus compradores: “Para que os senhores desse trem, seus donos e passageiros, não se vejam nem se olhem nunca mais”.

Antônio Campos

Advogado, Escritor, Editor, Membro da Academia Pernambucana de Letras e Curador da Fliporto.

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