Crônica da semana - Na novela das 9, a indecência de um país

Não quero falar da realidade hoje. A realidade anda dura de engolir, feia de ver, insuportável de testemunhar. Ando com vergonha de ser brasileira – e, como já disse aqui mesmo há umas duas semanas, se tivesse menos 30 anos, me mandava do Brasil.

Vamos falar de “Amor à vida”, a novela de Walcyr Carrasco, que tem tido dias mais animadinhos, e que a cada capítulo se mostra mais amoral, mais canalha. A cara do Brasil. A mãe, ex-chacrete e vendedora de hot dog vivida magistralmente por Elizabeth Savalla, educou a filha pra dar o golpe da barriga. Edificante. Numa das cenas, aconselha “dá uma chave de perna nele, daquelas, que você engravida, casa com o ricaço e a gente não precisa mais vender hot dog.”

A censura determina a faixa etária  dos telespectadores em seus programas, mas sabemos todos que as crianças – na faixa dos 8 a 10 anos -  ainda circulam pela casa no horário da novela das 9, além de terem acesso a tablets, computadores e demais gadgets que também transmitem a programação das emissoras de TV. Pensei: “ se minha neta de 9 anos me perguntar o que é chave de perna, o que vou responder? E golpe da barriga?” Longe de mim ser falsa carola, porta-voz das virtudes, ficção é ficção, mas francamente acho um pouco forte toda aquela canalhice oferecida em doses diárias em pleno horário nobre. Sabemos todos que vivemos no país do vale-tudo, mas não precisa exagerar. É baixaria um dia sim, outro também. Muita.

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Se não, vejamos: em “Amor à vida”, reinam os bastardos. O Félix (Mateus Solano é um must!) não é filho do Cesar, que por sua vez é o verdadeiro pai do filho do Félix, o bastardo Jonathan. O canalha Cesar – magistralmente vivido por Antonio Fagundes – será pai de outro bastardinho, fruto de sua ligação com a secretária Aline. Paloma é bastarda porque é filha de Cesar com outra mulher e não com a Pilar corneada da Suzana Vieira. Como se não bastasse, ainda entrará na trama a personagem Natasha, irmã bastarda da finada Nicole de Marina Ruy Barbosa, fantasma condenado a vagar sem falas porque irritou o autor. A nova personagem é filha ilegítima da governanta Lidia com o pai da Nicole, que sequer apareceu na trama. Sempre foi defunto, agora será fantasma. E patife.

Em outra face do folhetim dos sem caráter, aparece com destaque a bigamia. Dois casais praticam o crime previsto com cadeia no Código Penal e sem direito a embargos infringentes: a bonitinha tarada que passa a novela transando com o médico priápico e a vendedora de hot dog com o diretor do hospital – este casado com uma e  vivendo com outra . Por fora corre a terceira, a salsicha do cachorro quente. A salsicha, em seu sentido figurado,  foge como o Demo da cruz da virgem desesperada – uma maldade que o ator fez com a atriz Fabiana Carla, vivendo a mais chata e idiota personagem de sua carreira. O hospital, aliás, tem poucos doentes e muitos tarados – todo mundo come todo mundo e várias vezes por dia. O paciente que morra, kakakakakakaka!

Todas essas patifarias são didaticamente explicadas. A mãe vivida por Rosamaria Murtinho (também dando show como a amoral Tamara) dá aulas à filha Bárbara Paz sobre golpes no alheio para se dar bem na vida. O núcleo gay do bem ( Thiago Fragoso, Marcello Anthony e aquela insuportável Danielle Winits) abriga traições e mentiras e, pelo que andei lendo na rede, ainda reserva muita vigarice para os próximos capítulos. E olha que nem cheguei a falar do auxiliar de enfermagem que é cafetinado pela enfermeira-chefe. Que hospital!!!! Deus me livre de cair naquele CTI.

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Continuo preocupada com as crianças na sala. Ou diante do computador. Elas, coitadas, já nasceram no Brasil. No momento, ainda que não se tenham dado conta, testemunham um dos momentos mais deprimentes e feios da nossa história. Fico doente ao pensar que milhares delas estão dando um jeito de assistir ao mais importante programa da grade da mais importante emissora de televisão do país. Tremo só de pensar que minha neta pode, a qualquer momento, vir me perguntar, afinal, o que é uma chave de perna.

A que ponto chegamos. No geral. No Brasil e na novela.

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A última quadrilha do noticiário – esta que foi presa por desviar R$ 50 milhões dos fundos de pensão, esta cujos operadores andam a bordo de Lamborghinis e Ferraris – deve estar rolando de rir. Os presos e seus advogados. No país dos embargos infringentes, cadeia é uma espécie de spa detox. Depois de 5 dias, todo mundo lindo, leve e solto. Prontinhos para o próximo assalto aos cofres públicos. Prontinhos pra rir da cara dos brasileiros decentes.