Retratos da vida

Minha amiga reapareceu. Depois de anos e anos de convívio estreito, ela um dia sumiu, assim, de repente, na maior. Não deu mais notícias, a vida foi passando naquela base de um dia de cada vez – e como vai rápido depois que envelhecemos! - , e a gente acaba nem mais se dando conta de quanto tempo faz que não se vê mais uma pessoa que foi tão presente, tão querida.

O primeiro a reaparecer foi o filho, grande amigo do meu, que estava morando nos Estados Unidos e retornou depois da crise por lá. Os dois retomaram  o contato como se não tivesse havido qualquer interrupção  - a única diferença, agora, é que ambos têm filhos e ambos são maravilhosos pais.

Reencontrei minha amiga “perdida” no velório de outra. Todas foramos vizinhas na Barra, em nossos anos dourados, quando nossos filhos ainda eram projeto de gente. É um tipo forte de elo esse, forjado nos momentos de alegria e lazer, mas também naqueles aflitos, de muita preocupação, a cada febrinha, braço quebrado, a cada susto de adolescência. Tenho duas grandes amigas desse tempo – e esta tinha sumido.

Voltou com tudo. Sumiu porque estava vivendo um grande amor. Não reprovo, não estranho. Afinal, os grandes amores – especialmente em seu início – praticamente exigem exclusividade. Ela passou alguns bons e poucos anos com o amor por quem tanto lutou e que tanto quis. Ele foi embora ao primeiro problema sério, como é típico dos homens da nossa geração. Ela chorou, sofreu, mas finalmente deu a volta por cima – e reapareceu. Uma alegria, confesso, porque esta minha amiga é uma pessoa muito cheia de vida e muito engraçada. Aos poucos, vamos botando a vida em dia, depois de um gap de uns 10 anos. Amigos verdadeiros podem se dar a esse luxo.

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Minha amiga está se separando. E eu sofro. Com ela, com ele. Só quem já passou por isso sabe quanto dói a dor da separação.  Passa, claro, como tudo passa nesta vida, mas as marcas que deixa!

Ao contrário de mim, que me separei muito cedo, minha amiga está vivendo esta dor depois de 35 anos de casada. Sei que sequer posso imaginar a dor que ambos estão passando.  Deve ser insuportável, ao mesmo tempo em que representa um alívio para uma situação de extremo desgaste e estresse, que vem se arrastando já há algum tempo. Era uma separação anunciada, ainda que eu jamais quisesse encarar isso de frente. Desconfio de que nem eles.

Sinto-me impotente. É horrível essa sensação de que não há nada que se possa fazer para reverter a decisão. O que tenho para oferecer é o de sempre: o ombro amigo. Que ofereço a um e a outro, posto que ambos são irmãos de vida, parceiros de caminhada, seres iluminados.

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Meu amigo sofre, ainda que o sofrimento tenha sido um tanto esquecido nesses dias de folia. Meu amigo adora carnaval. Emerge da quarta-feira de Cinzas cansado do batuque e já pensando no que estarão tramando  aquelas pessoas que um dia foram sua família para desestabilizá-lo mais uma vez.  A família do meu amigo é de lascar! Outrora enorme, da família hoje ele só conta com uma irmã, o cunhado, dois sobrinhos e uma tia por afinidade. Por contar com entenda-se emocionalmente, porque meu amigo é há anos independente, trabalhador, respeitado e querido. Eles – aqueles outros! - não sabem o que estão perdendo.

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Daqui do meu cantinho, mando um beijo a todos os meus amigos. Estes aí de cima e os que não entraram na história, mas sabem  direitinho quem são. Amo vocês.