Vibrando com o Fluminense e chorando pelo Marcos Paulo

Nasci tricolor, de antepassados idem. Meu avô materno foi sócio fundador do Fluminense Football Club e minha avó contava que assistiu aos primeiros jogos do Fluzão num arremedo de estádio em ...Campo Grande. Ainda não existia a sede da rua Álvaro Chaves, que eles mais tarde muito freqüentaram. Conheci pessoalmente o grande Marcos Carneiro de Mendonça – o mais bonito e elegante goleiro da história do Fluminense. Vovó contava que sua  mulher,  Ana Amélia, cuidava para que ele entrasse em campo com a camisa (branca, de mangas compridas) nos trinques. O goalkeeper, mais tarde, tornou-se historiador e foi uma espécie de discípulo do meu bisavô Capistrano de Abreu. Foi sempre um bonitão elegante, mesmo já velho.

Conheci um rapaz, nos apaixonamos, e, logo nos primeiros papos, fiquei aliviada em saber que, além de ter casa bem perto de Teresópolis – onde passei todas as minhas férias de infância e juventude – era também Fluminense. Até então, eu era campeã em arrumar namorados flamenguistas e com casas em Petrópolis, o que muito me irritava. Casei com o tricolor, portanto. E geramos, naturalmente, um tricolor. Nos separamos, mas continuamos amigos e torcendo juntos. Ele deu azar: do segundo casamento, os filhos e a mulher são Flamengo.

Meu filho é tricolor desses de viajar para acompanhar o time. Não foi dessa vez porque não podia largar as panelas. Literalmente. Mas arranjou um jeito de torcer com os amigos tricolores como ele, em comemoração que virou a noite. Bela Antonia, a mais nova tricolor da família, ficou parte do tempo com o vovô tricolor e o resto da noite com a vovó aqui.

Não sou capaz, como meus queridos amigos tricolores – João Luiz de Albuquerque, Carlos Leonam, Mauro Campos e a mais fanática deles, Heloisa Salles  – de escalar times, lembrar jogadas, aquela defesa do Castilho, aquele armação do Gerson, aquele chute do Edinho,  esses lances.

Tenho outras lembranças.

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Lembro da vovó, já velhinha, proibindo que se ligasse rádio ou TV enquanto o Fluminense jogava alguma partida decisiva. Ficava nervosa demais e tinha medo de morrer do coração num dos lances. Só queria saber o resultado, nada mais.

Lembro com saudade de Gerson, Rivelino,  o argentino Doval, Carlos Alberto Pintinho Romarito e Felix em campo. Lembro do dia em que, jovem repórter, fui fazer uma entrevista com Gerson, nosso Canhota de Ouro, e das cantadas que levei da rapaziada na porta do vestiário em Álvaro Chaves. Passei o maior sufoco! Foi uma matéria para a Manchete, se não me engano.

Lembro uma outra vez em que o Fluzão ganhou um título ( não me lembro qual) e saímos do Maraca para o clube. Ricardo, então meu marido, a supracitada Heloísa, o saudoso Hugo e a Lina Pinheiro, amiga da vida, dos tempos de colégio. Sempre tive horror a foguetório e simplesmente me agarrei no alambrado do campo, apavorada, enquanto a turma se distanciava, eufórica, sem dar por minha falta. Levou um tempinho até que vissem que eu não estava ali. Fui resgatada, trêmula, e dei aí por encerrada qualquer comemoração mais barulhenta. Imagina se fosse hoje!!!!

Outro jogo, mesma turma, anos depois. Foi em 1976, numa dramática decisão com o Corinthians. Grávida do Chris, nem me passou pela cabeça não ir ao Maraca. Fui com a mesma turma e o barrigão. Quase chegando ao estádio, tropecei e caí de quatro. Maior mico, que deveria ter servido de aviso.Quando conseguimos sentar nas cadeiras que compráramos, o clima foi num crescendo de euforia e agressividade, que medrei. Tomei um táxi e voltei pra casa, em Ipanema. Sozinha, na maior. Os demais ficaram e voltaram pra casa com o rabo entre as pernas. Deu Corinthians.

Lembro do Chris, com 6 anos, camisa tricolor e cachinhos na cabeça, comemorando algum título na garupa do Buggy do João Luiz de Albuquerque, com as filhas dele, Gabriela e Cristiana, em buzinaço vitorioso pela Avenida Sernambetiba. Saudade boa!

Hoje em dia, do jeito que andam assassinas as torcidas, já não me animo mais a seguir o meu Fluzão. Fico de casa sofrendo, torcendo, vibrando, como vibrei neste domingo que passou com o jogaço contra o Palmeiras. No segundo tempo, quando empatou em 2X2, dei uma de vovó: não quis mais ver. Saí pra passear com o Bubi, meu cão tricolor, que me acompanhou na solitária comemoração, quando, na rua, fiquei sabendo que o Fred – grande Fred!!!! – ganhara não apenas o jogo, como o título de Tetracampeão.

NEEEEEESE!!!!!!!!!!!! Eu te amo.

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O domingo da vitória do Fluzão terminou mal pra mim com a notícia da morte, tão prematura, de Marcos Paulo - talento puro, ser absolutamente do bem, de quem tive a felicidade de ser amiga. Estive com ele e a Antonia, no final de agosto, no aniversário do meu querido Aleluia – uma tarde perfeita, de convidados perfeitos, e conversa boa.

Marcos Paulo estava ótimo e ali ganhou sua mais nova fã: Bela Antonia, que estava comigo, e que muito conversou com ele, daquelas raras pessoas que sabem tratar uma criança comme il faut.

Fiquei muito triste com a morte dele, que estava feliz com a boa recuperação que vinha tendo do câncer. A vida pode ser injusta muitas vezes. Foi muito desta vez.

Ele parte, mas deixa pra nós a lembrança de seu charme devastador, e, entre tantos bons papeis, um inesquecível Primo Basílio. O finório personagem de Eça de Queiroz, para mim, sempre terá a cara, o jeito, o poder de sedução de Marcos Paulo.

Ciao, bello! Descanse em paz.